Alunas do Projeto Damas festejam formatura na véspera do Dia Nacional da Visibilidade Trans

Os eventos aconteceram no Observatório de Tecnologia de Informação e Comunicação em Sistemas e Serviços de Saúde da cidade do Rio de Janeiro (Otics-Rio), no Centro
 

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A Prefeitura do Rio entregou na quinta-feira (28/01), o certificado de conclusão de curso às alunas do Projeto Damas, iniciativa que habilita travestis e transexuais para o mercado de trabalho. A cerimônia de formatura do curso de capacitação e inclusão social encerrou o ciclo de debates do IV Seminário da Visibilidade Trans — Dignidade, Inclusão e Respeito, que celebrou o Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado em 29 de janeiro. Mais de 130 alunas já foram capacitadas nos últimos cinco anos pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (Ceds). Das 25 alunas que participaram das aulas, quatro não compareceram à formatura por um motivo nobre: estavam trabalhando.

 

 

 

— O projeto simboliza o real significado de transformação promovido pelo poder público. A cada formatura realizada fica clara a mudança na vida delas. Elas eram excluídas e, após participarem do Damas, tornam-se cidadãs — destacou o coordenador da Ceds, Carlos Tufvesson.

 

 

 

 

As secretarias municipais de Educação, Desenvolvimento Social, Saúde, e Trabalho e Emprego trabalham em conjunto com a Ceds no desenvolvimento do projeto, que reúne oficinas de trabalho, ética e comportamento, com orientação vocacional, informações sobre prevenção e redução de danos à saúde, noções de direitos humanos e visitas guiadas. O curso oferece atendimento de saúde e assegura um período de estágio em órgãos públicos, As aulas são ministradas por psicólogos, fonoaudiólogos, professores, juristas, médicos, infectologistas e especialistas em hormonioterapia.

 

 

 

Uma das modelos do calendário PreparaNem (curso preparatório de transexuais para o vestibular), a estudante Thifany Isabella Branco (à direita da foto), 35 anos, disse que o projeto representa um divisor de águas em sua vida e serviu de estímulo para dar continuidade aos estudos:

 

 

 

— Antes de participar do projeto, eu tinha vergonha de entrar numa Clínica da Família, por exemplo. Agora conheço os meus direitos e sou bem mais ponderada. Estou aguardando ansiosa o resultado da segunda chamada do ProUni, graças ao Damas, que me encorajou a voltar a estudar. Para mim, o Damas é um gesto de nobreza.

 

 

 

Quem também teve a rotina diária alterada foi a balconista Hellen Nogueira Salles (à esquerda da foto), 33, que recorreu a um ofício do Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos (Nudiveris) da Defensoria Pública para ter o direito de ser quem é e ser chamada pelo nome social no supermercado onde trabalha:

 

 

— Tenho o meu nome social no crachá do trabalho graças ao Damas, reivindiquei o meu direito e fui atendida.

 

 

 

A mesa de abertura do seminário reuniu Carlos Tufvesson; a supervisora do Projeto Damas, Beatriz Cordeiro; a subsecretária de Inclusão Produtiva da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Jurema Batista; e a coordenadora de Políticas e Ações Intersetoriais da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Ellen Barreto.

 

 

– Devemos, sim, botar a nossa cara nessa luta. Mas nenhum objetivo será alcançado se as pessoas não guerrearem juntas. Se o desejo é lutar pela igualdade, isso deve ser feito por meio do esforço conjunto de um segmento, sem que haja qualquer tipo de divergência — disse Jurema Batista.

 

 

 

A questão da saúde não poderia ficar de fora do debate e o grupo também defendeu que transexuais e travestis tenham direito ao mesmo atendimento prestado à população em geral. Ellen afirmou que a SMS vem atuando fortemente em parceria com a CEDS para que isso aconteça:

 

 

 

– Temos muito desafios pela frente diante dessa realidade de transição, em que as lutas estão ganhando mais visibilidade. Precisamos batalhar para que a equidade seja respeitada em todos os setores e que todos sejam atendidos da mesma forma em nossa rede. Por conta desse esforço, comemoramos o fato de que o Rio de Janeiro é a primeira cidade brasileira a oferecer atenção básica aos travestis e transexuais.

 

 

 

O seminário foi dividido em dois temas. A primeira mesa tratou das “Convergências e Diferenças nas Demandas de Mulheres Transexuais, Travestis e Homens Trans”. Participaram a Dra. Jaqueline Gomes de Jesus – psicóloga e autora do livro “Transfeminismo: Teorias e Práticas”, Simon Prado – antropólogo e militante do Movimento Trans, e Katia Jones, também militante. Mediado por Leonardo Peçanha, o debate destacou o fato de que, antes de dar início a uma reivindicação, o indivíduo precisa ter pleno conhecimento do que realmente ambiciona.

 

– Devemos ter sempre em mente que tipo de visibilidade desejamos. Se é apenas aquela que nos faz aparecer ou a que os dá empoderamento. Estamos falando de um país onde mais se mata travestis e transexuais no mundo e isso deve ser tratado de forma séria, visando soluções para esse problema. Ser homem e mulher independe de órgão sexual. O papel de cada um é que precisa ser bem definido – afirmou Jaqueline.

 

Com o tema “Projeto Damas – Retrospectiva e Novos Desafios”, a segunda mesa reuniu a supervisora Beatriz Cordeiro; a professora da rede municipal de ensino, Maria Luisa Lixa; a representante da Defensoria Pública do Estado, Dra. Lívia Casseres; e a ex-aluna do Damas, Milena Santana. Para a professora, que viveu a experiência de trabalhar para o projeto, educação não deve ter distinção:

 

– Sempre trabalhei para pessoas que não tiveram acesso à educação no momento certo. Por isso, esse retorno aos estudos é muito complexo. O aluno, por alguma razão, teve o seu direito negado e se sente excluído. Mudar esse sentimento e fazer com que essa pessoa alcance o êxito demanda grande esforço, uma vez que envolve a autoestima dela. Esse trabalho com a CEDS é muito especial. A diversidade está na sala de aula e na sociedade. E a educação deve ser um direito de todos, seja a qual segmento a pessoa pertença.
 

 

Na plateia do seminário, uma pessoa se destacava: a transexual Maiara Fafini, 46 anos. Moradora da Barra da Tijuca, ela participou assiduamente de todas as edições do evento e disse que o segmento vem alcançando grandes avanços na busca pela igualdade de direitos:

 

– Nos sentimos acolhidas, ouvidas e respeitadas. Nossa causa precisa de visibilidade para que possamos avançar. Acredito que quando a sociedade é provocada a refletir, ela assume outra postura e luta ao nosso lado.
 

 

 

 

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