Falta de patrocínio preocupa atletas paraolímpicos

Dificuldades de atletas
 

Conquistar cinco medalhas em mundiais de atletismo paraolímpico – duas de ouro e três de bronze – e estar em primeiro no ranking brasileiro de sua modalidade, com um currículo no qual constam dois recordes nacionais, pode não significar tranquilidade para um atleta quando busca patrocínio.

“A deficiência física nunca me impôs dificuldade nenhuma. Apenas me ajudou, porque é um meio que tenho para obter mais e mais conquistas. Infelizmente não basta esforço e superação para que um para-atleta consiga vencer seu obstáculo mais difícil: a falta de patrocínio”, argumenta Thiago de Souza, 18 anos, o primeiro do ranking brasileiro de corrida com cadeira de rodas e dono de dois recordes nacionais e duas medalhas de ouro e três de bronze.

Até o início da tarde de hoje (26), Thiago havia conquistado três medalhas de ouro durante os dois dias de competição do Circuito Brasil Paraolímpico. “Mas ainda não conquistei nenhum patrocinador. A gente até tenta, mas nunca conseguimos chegar em quem dá a palavra final para o patrocínio”, lamenta.

Em competições desde os 14 anos, Thiago é o recordista brasileiro dos 100 e 200 metros na modalidade atletismo para cadeirantes, popularmente conhecida por corrida de cadeira de rodas. Segundo ele, o maior problema encontrado por atletas de sua modalidade é a reposição de equipamentos. “Estou sem verbas inclusive para comprar o pneu da minha cadeira”, diz.

“Já consegui apoios como o do colégio onde estudei [Notre Dame, em Brasília] e de amigos e parentes, que participam dos bingos e das rifas que eu organizo”, disse. “Geralmente os patrocínios que ocorrem com um ou outro atleta é motivado por indicações. Mas isso é uma minoria. Praticamente todos que conheço estão passando por dificuldades decorrentes da falta de empresas patrocinadoras”, completa.

“Claro que sempre que conquistamos um bom resultado acabamos nos sentindo mais motivados com o esporte e otimistas com a possibilidade de surgirem patrocínios. Mas atualmente isso não me deixa tão esperançoso. Até porque ao longo da minha trajetória ainda não aconteceu, apesar dos ótimos resultados que já obtive", ressalta.

O que sobra de talento falta em termos de otimismo também para a para-atleta Ana Carolina Pires Franch, que estava na expectativa de conquistar sua terceira medalha de ouro em natação, nesta edição do Circuito Brasil Paraolímpico. Contando apenas com o apoio da prefeitura de sua cidade – Assis, interior de São Paulo, de quem recebe R$ 250 mensais –, Carolina diz que sequer vai atrás de patrocinadores.

“Eu sei que isso é muito difícil de acontecer porque vejo que é a realidade de praticamente todos para-atletas”, disse a nadadora que acabara de ganhar duas medalhas de ouro nos 100 metros livre e nos 100 metros borboleta. “Tenho muitas dificuldades para me locomover, seja para o treino ou para as competições”, revela.

Treinadora da equipe de natação de Brasília, Virgínia Sara Saad explica que o que salva boa parte dos atletas portadores de necessidades especiais é a bolsa-atleta dada pelo governo federal.

“Os atletas de nível escolar recebem cerca de R$ 350 por mês. Os de nível nacional recebem R$ 750, os paraolímpicos são beneficiados com R$ 2,5 mil e os que participam das competições internacionais, R$ 1,5 mil. Quase ninguém consegue patrocínio, e essa bolsa acaba sendo imprescindível para eles”, diz Sara, que é professora da rede pública, cedida à Associação de Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe), em Brasília.

Segundo ela, as maiores dificuldades desses atletas estão ligadas ao transporte e à falta de treinadores e de apoio nutricional. “Eventos como este que está sendo realizado aqui em Brasília são mais suscetíveis de obter patrocínios”, explica. No caso, o patrocínio veio de um banco público, a Caixa Econômica Federal.

Com mais de 17 anos competindo, André Luiz de Mello, com paralisia infantil, jamais obteve qualquer patrocínio. “As empresas não acreditam no nosso potencial e sempre estão apresentando obstáculos para nos ajudar. Atualmente a desculpa mais utilizada é a da crise financeira internacional”, revela.

Fonte: Agência Brasil

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