“Imprensa cubana tem característica de trincheira”, diz Yoani Sánchez a jornalistas brasileiros

Dissidente diz que jornalismo em Cuba vive um axioma
 

No Brasil desde a madrugada dessa segunda, 18, a blogueira Yoani Sánchez participou de encontro com cidadãos e com a imprensa nesta quinta-feira, 21, no auditório do Estadão, em São Paulo. Pontualmente, às 10h, a cubana chegou cercada por seguranças e não falou com nenhum órgão de comunicação. Durante o debate, a dissidente disse que a mídia de seu país tem “característica de trincheira e não de informação”. Entre os veículos que acompanharam o evento estavam The New York Times, The Wall Street Journal, Der Spiegel, TV Globo, Band, CBN, Folha e portal Terra. Ao todo, foram 54 veículos nacionais e internacionais reunidos para ouvi-la.

 

No início do evento, o diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, ressaltou que a empresa “se sente feliz em poder levar informações claras para todo o Brasil e para o mundo em todas as mídias”. Ele passou a palavra para os mediadores, o repórter Lourival Sant’Anna e o editor de ‘Internacional’ do Estadão, Roberto Lameirinhas. Tanto no início, como no fim do encontro, Yoani foi aplaudida pela plateia.

 

 

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Dissidente diz que imprensa cubana vive um axioma 
(Imagem: Robson Fernandjes/Estadão)

 

 

Ao perguntar sobre a realidade da imprensa cubana, Sant’Anna comentou que deve ser frustrante trabalhar no Granma, o jornal oficial do governo dos irmãos Castro. “Mais frustrante ainda é o Granma”, respondeu a blogueira, provocando risos nos presentes. Yoani explicou que em seu país há apenas dois impressos de circulação nacional e que os demais regionais são fotocópias dos veículos do Estado.

 

 

“A imprensa segue um axioma: Cuba é um paraíso e o restante do mundo é um inferno”, disse. Ela exemplificou que as reportagens usam verbos positivos para se referir à realidade nacional e negativos, como “matar” ou “morrer”, ao fazer alusão a notícias de outros países.

 

Yoani enalteceu a maior participação do leitor na mídia, já que foram criadas seções especiais destinadas a reproduzir a opinião do público. Ela esclareceu, contudo, que os veículos selecionam depoimentos que irão às bancas, censurando aqueles que protestam contra o governo comunista. “Uma carta não será publicada se estiver questionando o fato do governo estar há 54 anos [no poder]. Flexibiliza-se algo, mas a imprensa cubana tem característica de trincheira e não de informação”.

 

Aplausos
Questionada sobre as manifestações que enfrenta por parte de movimentos de esquerda desde sua chegada ao Brasil, a cubana não se incomoda com ações ligadas à soberania popular e à livre expressão e enfatizou que agressões físicas representam movimentos extremos. “[a manifestação] Não me incomoda em grau nenhum, porque sou a favor da democracia. Nasci em um país onde não se pode contestar um homem [Fidel Castro]. (…) O grito, a ameaça física não é democracia, é fanatismo”. A fala de Yoani foi ovacionada pelo auditório.

 

Ela revelou que não esperava que sua visita ao Brasil tivesse tanta repercussão. Sobre sua volta a Cuba, ela antecipou como será: “já posso imaginar a repercussão em meu país: silêncio, silêncio, silêncio”.

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