“Só damos valor à água quando falta”, diz André Trigueiro sobre a cobertura do tema

Para o profissional, falta conhecimento e aprofundamento nas pautas relacionadas à água e que o jornalista precisa se desafiar mais ao tratar do tema
 

“A água é um assunto ambiental, social, econômico, energético e cultural. A gente não pode setorizar, ter a pretensão de circunscrever a temática”. Esta é a posição de André Trigueiro, editor-chefe do programa “Cidades e Soluções”, da Globo News e colunista da seção “Sustentável”, do “Jornal da Globo”. Ele que é responsável pela criação do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-RJ, também é um dos maiores nomes no assunto hoje no Brasil.

 
 

Crédito:Divulgação
Jornalista comenta a pauta água em seu dia mundial

Neste 22 de março, Dia Mundial da Água, o jornalista falou com exclusividade à IMPRENSA sobre a pouca importância dada ao tema na cobertura dos meios de comunicação. “O assunto água não é considerado nobre na imprensa. Os veículos querem saber se vai ter pibão, se vai ter energia, mas a gente não se dá conta que para sustentar o pibão ou energia se precisa de água”, dispara.

 
 
 
Para o profissional, falta conhecimento e aprofundamento nas pautas relacionadas à água e que o jornalista precisa se desafiar mais ao tratar do tema. “As escolas que formam jornalistas têm (…) parcela de culpa pelo analfabetismo ambiental que alcança o meio. Assim como as empresas público-privadas”. 
 
A saída, na opinião de Trigueiro, é saber cativar o seu público. “Precisamos do chamado efeito isca. Não precisamos fazer aqueles textos horrorosos que quando você está lendo parece que tem alguém te fiscalizando, dizendo: ‘pô, fecha a torneira’ ou ‘olha esse chuveiro’.

IMPRENSA: Como você avalia a cobertura do tema água na imprensa brasileira? Em comparação a imprensa internacional, o espaço dado tem sido suficiente? 

André Trigueiro: A gente não se deu conta que o Brasil é o país da moda, é uma das maiores potências do mundo, da Copa, das Olimpíadas, que pleiteia um assento no conselho de segurança da ONU, mas nós ainda ostentamos indicadores vexatórios, diria medievais de saneamento básico. Esse é um tema ainda não devidamente coberto pelas mídias no Brasil. 
 
Quando falamos do assunto que orbitam um planeta sustentável é difícil você categorizar, pensar determinados assuntos por editoria. Quando você fala de sustentabilidade, automaticamente pensamos em temas transversais, que passam por todas as editorias. A água é um assunto ambiental, social, econômico, energético, cultural. E a gente não pode setorizar, ter a pretensão de circunscrever a temática. A água é um tema transversal. 
 
 
 
Quais são os desafios do jornalista na cobertura do tema água? 
Faz parte do ofício do jornalista e eu não questiono isso, somos muito vinculados ao factual. Enquanto houver o risco de uma crise climática, risco de faltar água, isso não justifica uma manchete. O que tem justificado a manchete é a crise consolidada. Ou uma efeméride, como o Dia Mundial da Água. 
 
 
O assunto água não é considerado nobre na imprensa. Os veículos querem saber se vai ter “pibão”, se vai ter energia, mas a gente não se dá conta que para sustentar o “pibão” ou energia se precisa de água. O assunto é um tema periférico. Não recebe um espaço nobre em algumas redações. Só damos valor à água quando falta. Aí é manchete. Enquanto houver água na torneira, você estiver tocando a vida, a tendência é não reservar espaços tão nobres para o risco de escassez ou outros problemas sobre recursos hídricos.
 
 
A disciplina de meio ambiente deve ser incluída na faculdade ou uma especialização seria o melhor caminho para o jornalista? 
Eu dou aula na PUC, na graduação, no segundo curso de Jornalismo Ambiental do Brasil. É uma disciplina aberta a todos os cursos e é optativa, mas fica dentro do departamento de comunicação. A responsabilidade é compartilhada. As escolas que formam jornalistas têm parte dessa responsabilidade. Elas têm uma parcela de culpa pelo analfabetismo ambiental que alcança o meio. Assim como as empresas público-privadas.
 
Em algum momento da formação escolar e universitária, mesmo fora do âmbito do jornalismo, a gente deveria ter mais noção do imenso desperdício da água nos diferentes setores da vida e da economia. É obrigação das pessoas saberem que água é um recurso finito, escasso e caro. O desperdício é imoral, no caso da água, o tema é relevante porque diz respeito a um projeto de desenvolvimento do país. Não há qualidade de vida sem água.
 
 
 
Como abordar o tema água fugindo do convencional?
O jornalista é um contador de histórias em sua essência. Falta descobrir quais são as histórias que fazem a diferença, que são de interesse público. Temos que ter mais noção do que é notícia. Não há nada mais urgente que a qualidade de vida. Se água não é assunto importante, não sei o que seja. O mínimo que deveria ter como normas de conduta nas redações é a curiosidade que é um elemento fundamental no jornalismo. 
 
 
Este é um assunto pelo nível de importância e senso de urgência que seria muito pobre ter dedicado apenas um suplemento especial elaborado no dia 22 de março. É pequeno, não é esse o espírito. Nós como jornalistas temos que ter sempre essa curiosidade de entender a complexidade do tema. 
 
 
Precisamos do chamado efeito-isca. Não precisamos fazer aqueles textos horrorosos que quando você está lendo parece que tem alguém o fiscalizando, dizendo: “pô, fecha a torneira” ou “olha esse chuveiro”. Desta forma, é muito provável que neste dia 22 de março reportagens muito parecidas com as que foram publicadas há 10 anos quando foi discutido o “ano internacional da água doce”. Coisa que se prepara em 15 minutos, no esquema copia e cola. 
 
 

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