Artigo: MENINOS, EU VI

...E agora, vendo Neymar, meninos, eu vi de novo um filme parecido
 

Por Berto Filho

O tema é ida de Neymar para o ainda eldorado frondoso do futebol mundial, a Espanha, a terra prometida onde correm o leite, o mel e os salários bilionários dos astros da pelota. É como se Neymar fosse um surfista profissional e tivesse que competir no Hawaii… no templo das ondas.

Mas antes, tenho que dar uma paradinha no Pelé.

Meninos, eu vi.
Não, não é artigo do Arnaldo Jabor com o mesmo título.
Não é a poesia da música do Chico Buarque.
Nem é a poesia I Juca Pirama, do vate, etnógrafo, jornalista e teatrólogo bissexto (escreveu 4 peças para teatro) maranhense Gonçalves Dias.

Meninos, eu vi Pelé nascendo para o futebol, aos 16 anos. Meus e dele. Guardei bem as imagens dos seus gols fabulosos – inclusive as que foram torradas no incêndio da TV Record, em julho de 1966 -, das suas arrancadas e tabelas irresistíveis com Pagão, Coutinho ou Toninho, os 11 anos de vitórias seguidas do Santos sobre o Corinthians, enfim, meninos, eu vi um Pelé sempre fiel ao Santos. Sempre jogou lá e só lá. Minto, uma vez vestiu a camisa do Vasco mas foi um amistoso…

Mas os tempos são outros, o futebol virou negócio de bilhões, o amor à camisa perde de goleada para o amor ao dinheiro…

E agora, vendo Neymar, meninos, eu vi de novo um filme parecido.
Não estou comparando Neymar com Pelé. Não dá.

Deixando de lado a fortuna que vem atrás da fama, a saída de Neymar do futebol brasileiro é mais importante do que parece pelo vazio que vai deixar. O Santos sem ele vai ser o que ? Um time normal, como todos os outros.

Vamos sentir muitas saudades de suas coreografias nos gramados. Ele é festa, repentismo, arte, velocidade, improviso, malabarismo em estado puro.
Tudo bem, pode surgir outro – quem sabe no mesmo Santos – mas vai demorar. Um fora-de-série natural como ele não nasce por combustão espontânes nem por experiência em laboratório. Foi ungido por Deus com um talento primoroso para lidar com a bola e uma aura muito especial que o tornou quase um filho de todas as casas, como um dia foi Ronaldo Fenômeno.

Sim, vamos sentir falta dele. E teremos que ver os jogos do campeonato espanhol se quisermos continuar curtindo o jogo do Neymar. Como curtíamos os gols de Romário, Rivaldo e Ronaldo pelo Barcelona ou os de Kaká, agora no Real Madrid.

Ele recuperou a molecagem de Garrincha, foi um Macunaíma transformando marcadores em joões ultrajados a rigor.

É verdade que, de uns tempos para cá, os joões brasileiros e estrangeiros parecem ter descoberto um meio de parar Neymar, com o auxílio de colegas que ajudam a congestionar aquele território de ousadia por onde o ainda franzino azougue começa o seu fuzuê. Vai da ponta esquerda, no meio campo do adversário, na direção do centro da grande área. Se derem espaço, invade a pequena área, dá dribles desconcertantes em espaços mínimos e põe a redonda no fundo da rede, no contrapé do goleiro. É sua marca, sua genialidade.
Impedi-la é missão dos técnicos e zagueiros dos times adversários.
Mas Neynar deve estar inventando outras artes, renovando o estoque de diabruras para enganar as muralhas europeias.
Vai com Deus, Neymar, faz história, dá uma mãozinha pro Messi mas não esquece de batalhar pelo hexa em 2014.

Berto Filho

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