Simpósio SAE BRASIL

O evento destaca urgência de mais investimentos em tecnologia, logística e infraestrutura
 

Para avançar em eficiência a indústria automobilística brasileira precisa investir. Foi essa a tônica do Simpósio SAE BRASIL de Excelência em Manufatura e Logística, realizado na última quinta-feira em Porto Alegre, RS, em que especialistas debateram questões relacionadas ao aprimoramento de processos produtivos, cadeia de suprimentos, e inovação.

 

 

Ao abrir o encontro, o diretor da Regional Porto Alegre da SAE BRASIL, Daniel Zacher, destacou a importância do setor automotivo na economia brasileira, segmento que representa 20% do PIB industrial. “O Rio Grande do Sul tem um potencial enorme para ampliar sua participação no setor automotivo, entre os fatores competitivos destaca-se: seu tradicional e robusto parque industrial, em especial o de autopeças; a qualificação da mão de obra local – a região metropolitana de Porto Alegre conta com uma das melhores redes de ensino e pesquisa tecnológica do País – e por seu setor de serviços diversificado”, disse.

 

 

Gábor Deák, diretor de Inovação e Tecnologia da SAE BRASIL, completou dizendo que o Brasil precisa melhorar sua postura em relação a outros mercados. “Devemos nos impor perante o crescimento de outros países. Somos um país quieto e acomodado, que se contenta com esmolas. É preciso acordar e buscar mudanças, investimentos e incentivos. Um país que fala tanto em inovação precisa investir”, falou.

 

 

Ferramentas – O uso de sistemas que administrem, controlem e promovam melhorias nos processos de produção e de aprimoramento da cadeia de suprimentos foi abordado por Silvio Furtado, gerente de Vendas e Serviços, e Fernando Simão, gerente de Engenharia de Processos, ambos da ZF do Brasil, e Hirton Browne Maia Filho, diretor industrial da Continental de Gravataí, RS, no painel Tecnologias e Ferramentas em Manufatura.

 

 

Os executivos da ZF do Brasil mostraram como foi a implantação da filosofia Lean na planta paulista de Sorocaba, que começou em 2003 e permitiu a empresa se modernizar, controlar as operações e ser referência no grupo. “Com o Lean, readequamos nossa forma de trabalhar e, entre 2010 e 2012, tivemos um investimento acumulado em R$ 10 milhões”, disse Simão.

 

 

O diretor da Continental também ressaltou a importância do sistema Lean na busca pela excelência a exemplo da Toyota. O executivo contou que a montadora alcançou o maior lucro entre as 12 maiores montadoras do mundo, porque investiu no sistema de produção enxuta. “Enquanto as empresas insistirem em manter o sistema de produção em massa, elas continuarão perdendo dinheiro”, afirmou.

 

 

Marcelo Menezes, gerente de Logística da Renault do Brasil, apontou que quando a manufatura e a logística não se integram, as falhas são silenciosas. “Quando percebemos já perdemos muito dinheiro e os lucros vão para o ralo”, comentou.

 

 

O professor Adriano Proença, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresentou um estudo realizado sob encomenda da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, em que os pesquisadores visitaram 20 empresas chinesas dos setores eletroeletrônico, metal-mecânico e químico para descobrirem como que aquele mercado se preparou para o crescimento. Sob coordenação de Proença, o estudo apontou que o mercado chinês, nas últimas três décadas, aplicou a inovação secundária e também investiu na qualificação da mão de obra. “Hoje 1/3 dos formandos em ensino superior são engenheiros”.

 

 

Para Ricardo Cassel, chairman de manufatura, permitir que diferentes áreas mostrassem formas de melhorar controles de produção e aprimoramento da cadeia deixou o encontro muito rico. “Integrar assuntos e áreas é importante para o desenvolvimento do Estado. Só assim aprendemos diferentes técnicas que podemos aprimorar e integrar em nossas empresas”, afirmou.

Tecnologia – A aplicação de sistemas que gerenciem e controlem a cadeia de suprimentos é primordial para o crescimento. Porém, não adianta ter equipamentos sofisticados e programas modernos se não houver a integração e capacitação da cadeia. Este foi o recado de Carlos Panitz, chairman de Logística. “Sem essas atitudes não há inovação e nem competitividade”, disse.

 

 

Durante o painel Tecnologias e Ferramentas em Logística, o gerente de Logística e Qualidade de Fornecedores da Navistar Mercosul, Alexandre Tavares, apresentou um software para aprimorar o trabalho com parceiros e evitar a devolução de peças, que gera perda de faturamento e desperdício. Segundo o executivo, 40% das perdas por qualidade estão relacionadas a fornecedores e, com o sistema, a empresa conseguiu diminuir a rejeição de 400 PPM em 2011, para 100 PPM em 2013.

 

 

Um sistema que permitiu organizar, segmentar e planejar a compra e o fluxo de materiais foi implantado na ACGO. De acordo com Henrique Machado, gerente de Logística para América Latina, era preciso melhorar a acuracidade. “Precisávamos mudar nossa forma de planejar, e simplificar foi a solução. Com essa tecnologia conseguimos reduzir 40% do nosso lead time, 25% do inventário e 6% os custos de logística internos. Além disso, tivemos US$ 5 milhões de benefício financeiro”, mostrou.

 

 

Infraestrutura e Inovar-Auto – Pedro José de Oliveira Lopes, vice-presidente da NTC& Logística, mostrou os gargalos logísticos no Brasil. Para o executivo, faltam debates sobre o transporte de carga e política adequada para administrar as rodovias, ferrovias e hidrovias, isso onera o nosso custo logístico. “É preciso pensar na intermodalidade. Muito se debate sobre cada um desses setores, mas essas discussões não pensam na integração desses modais”, afirmou.

 

 

No painel Inovar-Auto e Outros Programas de Incentivo à Cadeia Automotiva, Ivan de Pellegrin, diretor presidente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção de Investimentos (AGDI), apresentou a política industrial e os planos de investimentos que o governo do Rio Grande do Sul tem para o setor industrial.

 

 

Segundo Pellegrin, o Estado lançou política de investimento em março do ano passado em que prevê melhorias na hidrovia Mercosul, construção de ferrovias, ampliação da pista e construção de um novo terminal de cargas no aeroporto Internacional Salgado Filho, duplicação da BR-116 entre outras ações que serão financiadas com recursos do PAC II. “Sabemos que os desafios são grandes, mas estamos otimistas quanto ao retorno que essas obras trarão ao Estado”, comentou.

 

 

Sobre o Inovar-Auto, as opiniões se divergiram. Enquanto alguns palestrantes olham o programa positivamente, outros acreditam que ele possui falhas, como pouca abrangência na cadeia.

 

 

Para Bruno Jorge Soares, membro da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que participou da confecção do acordo, o Inovar-Auto não é um regime de proteção da indústria nacional. “Ele é um regime de flexão, pois dá oportunidade para quem não produz aqui, passar a ter uma linha de produção nacional”, argumentou.

 

 

Para Luiz Carlos Mandelli, diretor-presidente da DHB, conselheiro de Administração da Abipeças e conselheiro suplente do Mercopartes (Sindipeças), o Inovar-Auto não dará o resultado esperado, porque a nossa balança comercial está negativa. “Hoje estamos importando muitas peças, acho difícil que esse cenário mudar. A tendência, pelo menos no próximo ano, é que os números aumentem”, comentou.

 

 

Segundo Mandelli, a perda de competitividade, causada pela desindustrialização e câmbio, fez o Brasil perder mercados. “O mercado de autopeças está com capacidade ociosa muito grande e isso só onera o setor. Estamos esperando o governo lançar um programa para nosso segmento; aí sim, poderemos ter uma visão mais positiva”, explicou.

 

 

Em contrapartida, Valter Pieracciani, sócio-diretor e fundador da Pieracciani, disse que o Brasil investe em inovação e incentiva o desenvolvimento interno de tecnologia. “Os financiamentos promovidos pelo governo e o Inovar-Auto irão permitir as empresas ter retorno de 70% a 75% de tudo o que investirem. Mas, não adianta ficar esperando, é preciso se mexer”, afirmou.

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