Jornalistas discutem como driblar imprevistos com gravador durante apurações

Em alguns casos, a própria dinâmica da reportagem dificulta o uso adequado
 

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Da fita cassete de outra geração, passamos ao digital e smartphone. De todo jeito, os gravadores de áudio seguem como ferramentas importantes para repórteres de texto em sua apuração. Apesar das tecnologias, é bom estar atento: o aparelho não é infalível. Às vezes, a própria dinâmica da reportagem dificulta seu uso adequado.

Crédito:Thomaz Napoleão
Lilian Ferreira, editora de Ciência e Ambiente do UOL
Lilian Ferreira, editora de Ciência e Ambiente do Uol, diz que sempre usa gravador quando se trata de uma pauta sobre pesquisa, até porque “neste assunto [as fontes] podem reclamar por causa de alguma palavra diferente, que faz mudar muito o sentido”. No entanto, conta que há casos em que, apesar de ter a entrevista gravada, não há tempo de ouvi-la para produzir na matéria.
 
 
 
Ela se lembra, por exemplo, quando esteve num congresso sobre neurociência. Em seguida, outros jornalistas já estavam publicando matérias a respeito, então também tinha que colocar algo rápido no site, pela dinâmica do online. “Para resolver isso na hora, evitei usar aspas e as palavras do entrevistado. Foquei mais na terceira pessoa e com a ideia geral [do assunto] no texto. Mas guardei a gravação para publicar a entrevista longa depois.” 

 
 
Em outra ocasião, o problema da jornalista foi não saber onde estava a entrevista, entre os cinco gravadores digitais disponíveis na redação. “Era [uma pauta] com os criadores de um teste genético para exercício físico. Como surgiram outros assuntos mais quentes, essa pauta foi engavetada.” Pela correria, a jornalista acabou não conseguindo deixar o áudio salvo no computador.

 
 
Quando apareceu outro gancho para usar o conteúdo, o jeito foi recorrer às poucas anotações que tinha feito na ocasião. “Não prejudicou muito porque não ia usar o conteúdo como fato principal da matéria, só como parte dela”, lembra. 

 
 
“Se a entrevista perdida tivesse maior destaque, teria que falar com a pessoa de novo, derrubar a pauta ou mudá-la para que o áudio se tornasse algo secundário. Tem que ter flexibilidade”, diz a editora. Felizmente, ela diz que nunca aconteceu nada com essa gravidade.
 
 
 
De cabeça
Uma repórter de revista semanal brasileira, que prefere não se identificar, conta que já aconteceu de “dar pau” no gravador da empresa durante uma entrevista. “Nem foi culpa minha e só aconteceu comigo uma vez. Mas tenho memória diabólica e lembrei de toda entrevista, então não teve problema algum.”

 
 
De todo modo, como recomendação, ela acha que uma boa é, ao longo da entrevista, mesmo gravando, o jornalista anotar palavrinhas-chave. “Pelo menos você vai ter o fio condutor ali escrito para puxar de memória caso dê pau [no aparelho]… E até para ajudar a tirar [o áudio]. Assim você pode pular pedaços que não precisa decupar.” 

 
 
Outro problema comum é a gravação ficar ruim porque o local da entrevista estava barulhento. Nesse caso, a repórter da semanal indica: “Tento pedir ao entrevistado para irmos para um lugar mais sossegado… E se não tiver jeito, tento colocar o microfone bem perto. Eu aprendi com o tempo em quais situações a gravação vai ficar inaudível e em quais não vai.” Além disso, ela diz dar sempre uma espiada para ver se o gravador está ligado.
 
 
 
“Aprofundar pontos”
Outra repórter, Amanda Secco, da segmentada Revista dos Vegetarianos, diz que também já perdeu uma entrevista que tinha gravado. Para resolver isso, ela pensou em uma estratégia que acredita ser a melhor para ao mesmo tempo não deixar o entrevistado bravo e certificar-se de que a memória não trai o jornalista.

 
 
“Primeiro escrevo tudo o que me lembro da entrevista; depois, entro em contato novamente com a pessoa e peço para retomar alguns pontos”, explica. “Digo que o áudio ficou ruim ou gostaria de aprofundar alguns assuntos.” 
 
 
 
Notas e idiomas
Para Amanda, os áudios são particularmente preciosos. Ela diz que, geralmente, não anota muito durante a entrevista. “Perco a concentração quando faço isso. Geralmente anoto tópicos ou frases soltas.” 

 
 
Lilian, do Uol, concorda em não apostar tanto nas notas: “Fica ruim anotar muito, você nem interage direito com o entrevistado.” Só no caso de matérias curtas, do dia a di,a costuma ficar só nas anotações. 

 
 
A repórter da revista semanal também indica ter atenção quando a entrevista é feita em outro idioma. “Eu já entrevistei de casa, sem gravar, um inglês que nasceu no subúrbio de Londres e, Jesus amado… sotaque horrível. E o meu inglês é muito bom para eu ter dificuldade de entender. Me arrependi horrores de não ter ido para redação fazer a ligação da salinha.” 

 
 
Ela diz que ia anotando, mas fazia um “esforço sobre-humano” para entender alguns trechos. “Teve alguns que eu não entendia e pensava que, ouvindo umas três vezes, aí teria entendido.” De fato, Lilian costuma sempre gravar quando faz entrevistas em outra língua, para depois checar se entendeu mesmo. “Vai saber se a pessoa falou fourteen (14) ou forty (40), às vezes? É garantia extra”, exemplifica.
 
 
 
Não gravar?
Em uma posição radicalmente oposta às colegas de profissão quanto ao gravador, está o português Luciano Larrossa, de Alcobaça, editor do site Escola Freelancer. “Eu não aconselho o uso deste objeto. Por um lado, provoca uma perda de tempo desnecessária no momento de passar para o computador a conversa. Por outro, é uma ‘desculpa’ para poder se desconcentrar com o que a outra pessoa está dizendo.” 

 
 
Ele acrescenta ainda que com o uso do aparelho o entrevistado sente menos à vontade para falar, evitando assim dizer muita coisa em razão do gravador à sua frente. No entanto, Lilian diz que, especialmente na sua área, de ciência, os pesquisadores até preferem o instrumento, para ter mais garantia. Larrossa compreende a crítica de que, às vezes, o entrevistado pode, no futuro, alegar que não disse o que de fato falou. “São opções e cada uma tem seus riscos.”

 
 
Crédito: Thomaz Napoleão
Maurício Horta, repórter free-lance da Superinteressante
Maurício Horta, repórter free-lance da Superinteressante
 
 

No celular

Os smartphones têm várias utilidades, entre elas também de gravar áudio, mas essa multiplicidade também acaba sendo perigosa. “Ninguém usa o iPhone só como gravador, aí o problema é sempre a bateria”, diz Maurício Horta, habitual repórter freelancer da revistaSuperinteressante,que não tem aparelho específico e só usa o celular para a função. 

 
 
 
“Você tem que ficar sempre procurando uma tomada se tiver que fazer algo fora o dia todo. Várias vezes acaba a bateria e você não consegue mais entrar em contato com as pessoas.” Se vai gravar a entrevista, tem que pedir licença: “Ah, tem uma tomada? A bateria esta acabando.” 

 
 
Fora isso, Horta chama a atenção ao problema da barra de rolagem, que ê pequena para entrevistas longas. “A dificuldade é na hora de fazer um browsing e recuperar um ponto a que eu queria voltar, por exemplo. Talvez no iPad seja melhor, mas ainda não tentei.”

 
 
 
Lilian afirma que, às vezes, acaba também usando o celular para gravar, mas prefere o da redação. Evita o smartphone porque, apesar de nunca ter ocorrido, tem medo de o celular acabar não gravando por algum motivo. Além disso, o celular não dá para ser conectado ao telefone fixo para gravações. 

 
 
Ainda assim, pode ocorrer de os cinco gravadores do Uol estarem em uso. “Ou ainda, quando vou para um evento ou viajo, uso o celular mesmo, para não monopolizar o da empresa”, conta ela.

 
 
O problema da multifunção no smartphone foi o que de fato desmotivou Amanda com o aparelho, a ponto de afirmar que nunca mais grava com ele. “Tive problemas quando o alarme tocava, alguém ligava ou eu mexia em alguma configuração.” Já com o gravador, só houve falha uma vez, por defeito do cabo que o conectava ao telefone. 

 
 
Ao menos a substituição das antigas fitas cassetes deve ter ajudado. O professor coordenador de jornalismo da Cásper Líbero, Carlos Roberto da Costa, lembra-se de quando enfrentou o problema de perder gravação em fitas da Basf. “Até enviei a fita para a fábrica, que constatou que um dos lados não estava magnetizado. Outra vez o problema foi ao fazer duas entrevistas seguidas e, na confusão, trocar a fita e regravar, apagando a entrevista anterior…”
 
 
 

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