Blocos carnavalescos celebram o Circuito da Herança Africana

Obras de reurbanização do Porto Maravilha recuperam tesouros da Gamboa
 

Se a compositora Chiquinha Gonzaga fosse viva estaria cantando hoje, feliz da vida, com os blocos carnavalescos da Zona Portuária o seu clássico “Ô abre alas que eu quero passar (…)”, eternizado pelo rancho Rosa de Ouro no carnaval de 1889. A emocionante cena aconteceria facilmente no Circuito da Celebração da Herança Africana, criado pela Prefeitura do Rio em 2011, onde as obras de reurbanização do Porto Maravilha estão mescladas com as questões histórico-culturais da Cidade do Rio de Janeiro.

 

 

Neste pré-carnaval já desfilaram pelo roteiro da afrodescendência mais de 15 mil foliões, que se esbaldaram em blocos como “Coração das Meninas”, “Oba”, “Independentes do Pinto” e agremiações lendárias como “Vizinha Faladeira”, “Fala Meu Louro” e o “Afoxé Filhos de Gandhi”, entre outros. E tudo indica que a festa está só começando na região, um dos mais importantes berços culturais da cidade, onde haverá desfiles até o dia 16 de fevereiro.

 

 

 

O novo museu aberto do Cais do Valongo e da Imperatriz, onde desembarcaram milhares de negros escravizados vindos da África, assim como a revitalização da Pedra do Sal e dos Jardins Suspensos do Valongo, integram o Circuito cada vez mais festejado pela população. A recuperação desses logradouros, que representam símbolos da resistência negra, tem mostrado que esses cenários da história da cidade estão mais vivos do que nunca. No entanto, até bem pouco tempo essa riqueza parecia relegada ao esquecimento, feito uma Atlântida perdida diante dos nossos olhos.

 

 

 

Entusiasmado com o reconhecimento do trabalho que está sendo desenvolvido para preservação da história, o Presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), Alberto Gomes Silva, empresa responsável pelas obras, diz que o Carnaval de Rua 2013 já é um sucesso na região da Gamboa.

 

 

 

– Esse carnaval já está sendo bem diferente do ano passado, quando a Liga dos Blocos da Zona Portuária reuniu 500 pessoas em seu primeiro desfile. No primeiro encontro deste ano, no dia 12 de janeiro, foram mais de cinco mil foliões. Estou certo de que daqui pra frente a Festa de Momo vai crescer ainda mais neste berço do samba – destaca Gomes Silva.

 

  

 

Um baú cheio de tesouro foi aberto

 

Tão orgulhosos quanto o Presidente da Cdurp estão os organizadores dos tradicionais blocos da área. Para a presidente da Liga dos Blocos e Bandas da Zona Portuária, Rosiete Marinho, nascida e criada no Morro da Providência, o Circuito da Herança Africana dá dignidade não só aos afrodescendentes, mas a todos os moradores daquela área.

 

Foto: Nelson Duarte

 

– Hoje temos orgulho de nossas raízes estarem fincadas neste espaço histórico da cidade. Moradores que se mudaram nos últimos anos estão voltando a frequentar a região. Estamos honrados em receber visitantes e antigos vizinhos. É como se um baú cheio de tesouro de repente fosse aberto – diz a envaidecida Rosiete, responsável também pelo renascimento do bloco Coração das Meninas, ao lado do compositor João Bororó.

 

 

 

As palavras da presidente da Liga dos Blocos são endossadas por todos os representes das agremiações da região do Porto. Regina Célia Sales (foto), diretora do Afoxé Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro, conta que o bloco fundado há 61 anos sempre teve como perfil a resistência cultural. E afirma: valeu a pena.

 

– O nosso sentimento é de que nossa ancestralidade está sendo respeitada. Isso aqui é nossa Pequena África, onde tudo começou para nós. O que antes considerávamos uma utopia, o Prefeito Eduardo Paes transformou em realidade. Estou lisonjeada e agradeço pelos meus antepassados – fala com emoção Regina Sales.

 

Foto: Nelson Duarte

 

A alegria dos integrantes do Filhos de Gandhi e de todos os demais participantes dos blocos da Zona Portuária mostra que todos têm consciência sobre a contribuição africana para a construção da cultura e identidade brasileira. E é desse valor de que fala o Presidente da Cdurp.

 

 

– A grande importância desse resgate está no fato de trazermos à tona a contribuição africana para cultura brasileira assim como também a relevância histórica daquela região para o Rio e todo o Brasil. Quando falamos da herança africana não devemos falar somente da tristeza da escravidão, mas também da alegria, na culinária, do samba, da música e até mesmo das técnicas industriais. A Doca Pedro Segundo, primeiro equipamento portuário público, é uma obra do engenheiro negro André Rebouças – lembra Gomes Silva. Segundo ele, um dos grandes méritos da Prefeitura do Rio durante as obras foi ter a sensibilidade de saber recuperar o sítio arqueológico encontrado.

 

 

– Imaginava-se que o Cais do Valongo estivesse muito mais destruído. Sempre se soube que ele estava naquele local, mas nunca se fez nada. O grande gesto do Prefeito foi decisivo. Eduardo Paes defendeu não só a preservação, mas também a criação do memorial em reconhecimento daquele lugar para a nossa história. Trouxemos à luz esse marco do passado. Investimos no museu a céu aberto e agora vamos investir na sua divulgação e conservação.

 

 

Conheça, passo a passo, o cultuado circuito da Zona Portuária

 

Cais do Valongo e da Imperatriz

A intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro construiu o Cais do Valongo em 1811 para atender a antiga determinação do Vice-Rei, o Marquês de Lavradio, feita em 1779. O mercado de escravos se intensificou a partir da construção do Cais, porta de entrada de mais de 500 mil africanos. Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. Na primeira intervenção, em 1843, foi remodelado com requinte para receber a Princesa Teresa Cristina Maria de Bourbon, passando então a se chamar Cais da Imperatriz.

 

 

Pedra do Sal

Considerada berço do samba carioca, a Pedra do Sal, ao fim da Rua Argemiro Bulcão, ainda é ponto de encontro de sambistas da cidade. Tem este nome porque o sal era descarregado na rocha pelos escravos no século XVII. Os degraus foram esculpidos para facilitar o trabalho de subir na pedra lisa. A partir da segunda metade do século XIX, estivadores se reuniam no local para cantar e dançar. Por ali passaram grandes nomes da música popular brasileira, como João da Baiana, Pixinguinha e Donga. Em 20 de novembro de 1884, Dia da Consciência Negra, foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural.

 

 

Jardim Suspenso do Valongo

A antiga Rua do Valongo, que ligava o Cais do Valongo ao Largo do Depósito, abrigava lojas que vendiam escravos e artigos relacionados à prática da escravidão. Nesta área também havia mercados onde os africanos escravizados eram expostos aos potenciais compradores. No início do século XX, por ocasião do alargamento da via, foram construídos o Jardim Suspenso do Valongo, a Casa da Guarda e o Mictório Público.

 

 

Largo do Depósito

Em 1779, quando o Marquês de Lavradio determinou a transferência do mercado de escravos da Praça XV para a região do Valongo, o Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores, concentrava armazéns de “negociantes de grosso trato” que controlavam o negócio. A mudança introduziu uma série de novas atividades na área, como a instalação de trapiches, manufaturas e armazéns.

 

 

Cemitério dos Pretos Novos

A transferência do mercado de escravos da região da Rua Primeiro de Março (Rua Direita) para o Valongo implicou mudança do Cemitério dos Pretos Novos do Largo de Santa Rita para o Caminho da Gamboa (Rua Pedro Ernesto, 32). Os pretos novos eram os cativos recém-chegados ao Brasil, que muitas vezes não resistiam aos maus tratos da viagem no navio negreiro. O sítio arqueológico foi descoberto em 1996, quando moradores faziam uma reforma na casa.

 

 

Centro Cultural José Bonifácio

Inaugurado em 14 de março de 1877, o Centro Cultural José Bonifácio foi o primeiro colégio público da América Latina. Construído por ordem de D. Pedro II para a educação da comunidade carente da Zona Portuária, fazia parte do conjunto das “escolas do imperador”. Desativado em 1977, o palacete deu lugar à Biblioteca Popular Municipal da Gamboa. O espaço hoje é um centro de referência da cultura afro-brasileira.

 

 

Veja aqui a programação dos blocos na cidade.

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