IEDE tem programa para crianças obesas nas férias

Programa de internação aproveita o período sem aulas para acelerar a perda de peso e investigar as causas de casos graves
 

 

Alimentação e sono desregrados, além do relaxamento das atividades físicas são comportamentos comuns no momento mais esperado do ano pelas crianças: as férias. Mas enquanto a maioria delas desacelera o ritmo nessa época do ano, um grupo de pacientes do Ambulatório de Endocrinologia Pediátrica do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede) vive o oposto, tentando reduzir o peso de forma saudável com acompanhamento médico integral. Esses jovens, a maioria entre 11 e 14 anos, participam do programa de internação de crianças obesas oferecido pelo instituto durante as férias escolares. O projeto é voltado para casos de obesidades graves e já atendeu cerca de 20 pacientes, inclusive bebês, desde o início, em 2010.

O serviço permite que o paciente fique internado na unidade em torno de 15 dias para que, durante esse período, faça todos os exames necessários e seja avaliado por uma equipe multidisciplinar. Os exames têm como objetivo descobrir as reais causas da obesidade excessiva, além de partilhar de uma dieta balanceada e ser estimulado à prática de atividades físicas.

– Após a realização dos exames, pegamos pareceres com toda a equipe, que é formada também por cardiologistas, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e, a partir daí, começamos a entender a história dessa criança. Sabemos da dificuldade para a família levar o paciente em dias diferentes para ser avaliado. A internação liga o alerta da criança e dos pais de que o problema sério, que precisa se cuidar, pois pode, no futuro, se tornar cardiopata, diabética. Com isso, a aderência e a continuidade do tratamento costumam melhorar. Usamos as férias porque é um período em que elas estão mais disponíveis, mas quando há urgência também internamos ao longo do ano. A grande maioria deles perde peso, cerca de 3 a 4 quilos, durante a internação ou pelo menos estabiliza – explica a coordenadora do Ambulatório de Endocrinologia Pediátrica do Iede, Carmen Assumpção.

A internação possibilita também que a equipe descubra maus hábitos alimentares como mastigação errada ou rápida demais, refluxo, desinteresse pela comida, entre outros, e possíveis questões familiares que estejam causando desequilíbrio emocional e possa agir para corrigir os problemas.

 

– É comum vermos crianças que pegam o prato, ficam em frente à TV e nem olham pra comida, só jogam o alimento pra dentro da boca. Em casa, muitas fazem o mesmo também em frente ao computador. Isso é péssimo porque elas não conseguem sentir o sabor do alimento, o prazer de comer. Por isso, providenciamos uma mesa para elas fazerem as refeições e a TV fica desligada nesse momento. Aqui, elas não passam por uma reeducação, mas sim por uma educação alimentar, pois muitas nunca receberam orientação nesse sentido – conta Carmen.

Família unida, emagrece unida

 

Cinquenta e oito quilos. Esse foi o peso que a família Silva Lima perdeu depois que a pequena Rafaela, de 5 anos, foi internada pelo programa, há dois anos. Portadora de bronquite crônica desde que nasceu, a menina vive à base de corticoides, que causam inchaço e aumento de peso. Ao chegar no Iede, com seis quilos a mais do que tem hoje, Rafaela estava com problemas no fígado, colesterol e triglicerídeos altos e pré-diabetes.

– Ela sempre foi muito gordinha e, além do problema de saúde que a faz engordar, nossa alimentação era muito ruim. Comíamos frequentemente batata frita, salsicha, pizza, pão de queijo. Ela passou 16 dias internada no programa e eu a acompanhei. Lá, junto com ela, também aprendi a comer, a saber o que engorda, a selecionar o que comprar no mercado. Levei essa nova forma de se alimentar pra nossa casa e o resultado foi que emagreci, de lá pra cá, 30 quilos, minha filha mais velha, 17 quilos e meu marido, cinco. A dieta continua até hoje e não sinto mais vontade de comer besteiras. Hoje, nossa alimentação é à base de verduras, legumes, peixe ensopado. A Rafaela reclama quando a avó não põe abobrinha no prato dela. Estou até dando dicas pro pessoal da minha igreja que quer emagrecer – comemora Rosangela Lima, mãe da menina.

Exercícios são fundamentais

 

Além dos exames, cardápio especial e acompanhamento médico, a prática do exercício físico é estimulada durante o período de internação. Acompanhadas dos responsáveis, que ficam na unidade junto com as crianças, elas caminham no Campo de Santana, bem próximo ao Iede.

 

– É fundamental aliar a dieta e a criação de novos hábitos alimentares ao condicionamento físico. De um modo geral, as crianças obesas fogem das atividades físicas porque são discriminadas, não conseguem correr e, nas escolas, os professores muitas vezes as deixam encostadas. A maioria dos pais acha que atividade física está atrelada à prática de um esporte ou à academia, mas isso é um mito. A criança pode se exercitar de outras maneiras e, com isso, ter uma vida mais saudável – orienta Carmen.

No caso de Rafaela, começar as aulas de balé ajudou não somente a reduzir o peso, mas também a aumentar sua autoestima. A menina, fã de Jennifer Lopez, aproveita o tempo livre pra ensaiar coreografias da cantora com a irmã de 13 anos.

– Ela está fazendo balé e ano que vem vai começar a ginástica olímpica e natação, que é ótimo pra ela que tem bronquite. Eu aproveito e faço caminhadas, que me ajudaram muito também no processo de emagrecimento – conta Rosangela.

Obesidade infantil no país

 

Segundo dados recentes do Ministério da Saúde, três em cada 10 crianças brasileiras em idade escolar são obesas. Colesterol alto e tendência a diabetes, antes problemas relacionados a adultos, já são frequentes em crianças. Por isso, o comprometimento e a presença dos responsáveis no programa de internação são fundamentais para o sucesso da iniciativa. Muitos também são obesos e são eles quem compram os alimentos que serão servidos às crianças.

– A família tem papel fundamental no processo. Cerca de 80% dos pais das crianças que internamos também são obesos e na hora de escolher a alimentação optam por caixinhas, embutidos, saquinhos e a criança sempre vai comer o que tem em casa. Se ela encontra frutas, legumes, verduras, será isso que ela vai comer quanto estiver com fome. Os pais têm que entender que os filhos são espelhos deles e que essas escolhas erradas estão intoxicando e criando doenças nos filhos – explica Carmen.

 

Ambulatório infanto-juvenil do Iede

 

Criado em 2009, o serviço atende crianças obesas ou com sobrepeso, trabalhando em prol de um objetivo: modificação de estilo de vida (MEV). A partir desse referencial, a finalidade é que o paciente perca entre 30 e 40% do seu peso, ajudando a reduzir o risco cardiovascular e as comorbidades associadas à obesidade. Primeiramente, é feito o diagnóstico diferencial, que avalia se a obesidade tem causas exógenas, que estão relacionadas ao excesso de ingestão de calorias e/ou pela falta de atividade física, causas de origem genética, psiquiátrica (transtornos alimentares), endócrina (hipotireoidismo, por exemplo), causadas por medicamentos (corticoides, anticonvulsivantes, etc), entre outras. Após classificar e separar esses diagnósticos, a equipe monta o encaminhamento e tratamento necessários.

– Normalmente, a meta é a perda de meio quilo por mês ou pelo menos a manutenção do peso. As consultas acontecem, em média, a cada dois meses e são feitas por uma equipe multidisciplinar, além de consultas com o serviço social. Fazemos ainda reuniões com os pais a fim de trocar experiências, orientá-los sobre o que deve ser comprado no mercado, sobre a merenda escolar, stress, entre outros assuntos relacionados. É também um ótimo momento onde as crianças conseguem se colocar e contar sua história – detalha Carmen.

 

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