O futuro é aqui

A arquitetura inovadora da Barra, celeiro de novos empreendimentos, inspira toda a cidade
 

Se os nomes americanizados da Barra podem levar a crer que no bairro imperam réplicas de obras da terra do Tio Sam, os grandiosos mostram que, em matéria de design, o bairro é cosmopolita, um celeiro de projetos ousados, inspirados no que está em voga em diferentes partes do mundo. São exemplos a ponte estaiada da Linha 4 do Metrô (Ipanema – Barra da Tijuca), ideia do arquiteto espanhol Santiago Calatrava; e a Cidade das Artes, criada pelo francês Christian Portzamparc e inspirada em outros trabalhos assinados por ele, como Cidade da Música, em Paris, e o Museu Hergé, na Bélgica.

– A arquitetura feita aqui é para gerar provocação, uma novidade máxima com destaque na paisagem, como o arquiteto Lelé (João Filgueiras Lima) fez no (hospital) Sarah e o Christian de Portzamparc, na Cidade das Arte. Na tentativa de inovar, temos bons exemplos como Sheraton Barra, o O2 e o Centro Empresarial Mário Henrique Simonsen – atesta Celso Royal, membro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e professor de Arquitetura da PUC-Rio.

Para o arquiteto, amplas áreas externas, comuns na região, muitas vezes definem como será um projeto:

– Elas tanto fazem parte do projeto como do próprio empreendimento, nada é construído na Barra sem generosidade de vista ou sem a preocupação com a natureza. A arquitetura é muito forte aqui, porque, onde há competição entre construtoras, a criatividade não tem limite.

O GLOBO-Barra visitou empreendimentos inovadores, que favorecem o principal objetivo do urbanista Lucio Costa ao traçar as linhas do bairro: proporcionar qualidade de vida. E nem só os empreendimento grandiosos das construtoras, como o Centro Metropolitano, revelam o que está por vir em termos de arquitetura urbana: shoppings e obras públicas, como o metrô, também trazem ideias modernas, que poderão ser copiadas em outras áreas da cidade.

Inspirações de Abu Dhabi a Nova York

Nas novas propostas da construtoras destacam-se referências ao que há de mais moderno na arquitetura mundial. Vide o exemplo do CasaShopping, que, em julho, inicia mais uma expansão. A estrela da nova área é uma cobertura de vidro idealizado pelo arquiteto israelense Nir Sirvan, batizada como Carioca Wave. A construção está a cargo da Seele, que assina o projeto da famosa caixa de Vidro da Matriz da Apple em Nova York.

Já a Calper lançou no Recreio um residencial com fachada ondulada, que será entregue em 2015 e, segundo a construtora, procura remeter às edificações de Abu Dhabi e Dubai, riquíssimas cidades dos Emirados Árabes, onde se destacam recursos tecnológicos e artes futuristas. Os legados urbanísticos de Gaudí em Barcelona e dos Jogos Olímpicos da Inglaterra também foram referências no projeto.

Outro exemplo de arquitetura contemporânea é o prédio do hospital MDX Medical Center, que, segundo o autor do projeto, o arquiteto baiano Ivan Smarcevscki, “está em concordância com a paisagem urbana da Avenida das Américas e com seu partido horizontalizado, valorizado por uma cortina de vidro entremeada por uma estrutura leve e delgada, em conjunto com a escultura metálica junto à entrada principal”.

Mais novo shopping center do bairro, o Village Mall apostou noutra tendência mundial, a de ser tão sustentável quanto possível, e aproveita a luz do sol.

– A luz natural nas áreas internas reforça a ligação com a natureza. Se a vista é generosa, a paisagem deslumbrante do entorno, como a Lagoa da Tijuca, a Pedra da Gávea e as outras montanhas do entorno, não poderia ser negligenciada – explica Antônio Paulo Cordeiro, um dos arquitetos responsáveis pela concepção do shopping.

Uma forte característica dos empreendimentos da região é o investimento na multifuncionalidade, o que acaba influenciando, naturalmente, sua concepção arquitetônica. É o caso do recém-lançado centro comercial da SIG, o Uptown, na Avenida Ayrton Senna, que tem mais de 600 unidades.

– Ao longo do tempo, em quase todos os condomínios e complexos da Barra foram criadas soluções para melhorar a dinâmica da rotina. O condomínio Santa Mônica (um dos mais antigos), por exemplo, tem formato circular que favorece a circulação em sua generosa área de lazer, que mais parece um clube, com tudo o que e pode imaginar – oberva Celso Rayol, do IAB.

 

Entrevista Dr. Carlos Carvalho

Sorria: você está na Barra

‘O bairro é o Centro do Rio’

Para Carlos Carvalho, o projeto urbanístico ajudou a transformar a região no futuro da Cidade.

Todas as conversas de Carlos Carvalho terminam no Centro Metropolitano. O atual projeto de sua construtora, a Carvalho Hosken, tornou-se uma obsessão na vida do empresário de 88 anos – 38 deles dedicados exclusivamente à Barra. Foi em 1975 que Carvalho fechou todos os escritórios que tinha pelo país para atuar no local pelo qual é apaixonado e chama carinhosamente de “cidade nova”. Uma provocação direta ao Centro e à Zona Sul, sempre citados pelo empresário como “o lado de lá”, “cidade velha” ou “centro histórico”. É isso mesmo. Carlos Carvalho quer transformar 1,4 milhão de metros quadrados do terreno na Avenida Abelardo Bueno no novo centro geográfico do Rio, como sonhou Lucio Costa. E, para completar a missão, não encontra sucessor. Por isso, não deixa de bater ponto, todos os dias, às 8h, em seu escritório decorado com inúmeras obras de arte.

  • Na rua opinião, o que marca a ocupação da Barra?

R. O primeiro fato marcante foi a Cidade de Deus, quando o Carlos Lacerda fez o primeiro conjunto de casas sociais. Era até um programa muito bem-feito, mas estava distante dos centros de trabalho, sem integração entre a comunidade e as conveniências devidas, o direito ao lazer, ao trabalho, acesso ao transporte.

 

  • E o erro se repetiu?

R. Depois a cidade teve uma sucessão de erros urbanísticos. Em todos os lugares onde foram criadas comunidades expressivas não houve visão urbanística para integrar moradia com lazer e trabalho. Isso levou uma série de problemas na nossa cidade antiga, e nós pagamos caro até hoje. O grande problema do Centro é que ele acabou tendo uma concepção que hoje está atrasada lá só se trabalha. Tem uma fortuna investida lá, mas ele funciona apenas até uma certa hora. Com isso, você passa a ter dificuldades, por exemplo, de acessá-lo. Não há equilíbrio.

 

  • Por isso seu apoio à ideia de um novo centro do Rio?

R. A gente passou a ter uma cidade antiga agradável, mas com um conceito urbanístico pobre. O Centro antigo não é centro; é ponta. O Rio tem sorte, porque a Barra, a parte mais importante, em termos geográficos e de conforto urbano, que é uma réplica da Zona Sul e da cidade antiga, está se desenvolvendo. É uma região que tem cinco vezes a área de toda a Zona Sul. Será o centro mais elitizado do mundo, com avenidas de até cem metros de largura, enquanto a Rio Branco tem 30 metros.

 

  • Como vai ser o Centro Metropolitano?

R. Vai ter tudo. Hospital, escola, centros comerciais, escritórios, moradias. O Rio tem tudo para ser uma cidade modelo. O destino do outro lado é ser o centro histórico. Ele já está bem visível, já está surgindo. O governo dificilmente virá. Mas ali será o centro geográfico da região metropolitana.

 

  • Como o senhor vê o urbanismo na Barra?

R. O poder público induz as diretrizes de ocupação urbana. Quando ele se coloca mal ou é omisso, as coisas começam a apresentar defeitos, porque aí depende muito de cada proprietário, que vai fazendo como lhe convém, e não como convém a cidade. Aqui na Barra, não. A coisa ficou definida de um jeito que o que está feito é o que convém à cidade. A área é privilegiada. Aqui só faltam mobilidade e acessibilidade. Houve erros urbanísticos graves, mas felizmente têm conserto. Só estamos atrasados. Não tínhamos mobilidade urbana porque estávamos engarrafados, nem acessibilidade porque estávamos isolados. Agora temos a acessibilidade. Em que isso vai se traduzir? Num problema para nossa mobilidade. Então, ou as nossas autoridades vão perceber que é preciso criar mobilidade aqui, distribuir o tráfego de maneira ordenada, ou isso vai virar São Paulo. Vai chegar muita gente. O governo precisa criar uma comissão especial para cuidar da Barra, que é uma joia valiosa e precisa ser protegida.

 

  • Sugere alguma medida imediata?

R. Se não se aplicar os limites e regulamentos corretos, as vias podem se transformar em problemas. A Avenida do Canal, por exemplo, foi interrompida em alguns trechos porque um condomínio avançou sobre o terreno.

 

  • O poder público está ausente?

R. As lagoas vão ser saneadas. O esgoto está sendo canalizado para o emissário. Então, não tem havido ausência; ao contrário. A Barra está sendo privilegiada pela ação do poder público e a atitude de seus empresários.

 

  • Essa atuação vai aumentar, agora que a Barra é a menina dos olhos do Rio?

R. Ouço isso com alegria, porque tem gente do lado de lá, da cidade antiga, para quem a Barra não existe.

 

  • O senhor acha que o desenvolvimento da Barra vai se acelerar?

R. É a única alternativa para a cidade crescer. É onde dá para fazer isso de forma ordenada e a onde a população quer ir. As olimpíadas serão um grande legado. Por um lado, essa vai ser a salvação da Barra. Por outro, pode ser Waterloo. Porque é um lugar todo elitizado, mas, se você não conseguir andar pelo sistema viário vicinal, estará perdido. Hoje, se você entrar na Salvador Allende para pegar a Ayrton Senna, pode demorar duas, três horas, caso haja um acidente. E quem está cuidando disso? Ninguém. Algumas coisas estão melhorando; vamos ver. A Barra tem tudo para bombar.

 

Reproduzido do Jornal Globo Barra do dia 7 de março de 2013

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