Pacificação inclui comunidades no circuito gastronômico do Rio

Concurso de culinária aumenta participação de bares que funcionam em áreas com UPPs
 

A pacificação está incluindo bares de comunidades cariocas no circuito gastronômico da cidade. O tempero dos quitutes e a cordialidade dos donos garantiram a entrada de dois estabelecimentos de UPPs no Comida di Buteco 2013, maior concurso de cozinha de raiz. O Point Lanches, conhecido como Bar do Baiano, na Ladeira dos Tabajaras, estreia nesta edição, que começa hoje, ao lado do Bar do David, no Chapéu Mangueira, segundo lugar da competição do ano passado. E para quem gosta de explorar, há opções diferenciadas em diversas regiões pacificadas.

 

Referência em sua comunidade, o Point Lanches que cativou os examinadores do concurso começou há seis anos como uma carrocinha na calçada. Com o empenho do dono, o falante Ivan de Avelar, de 36 anos, o comércio cresceu, apareceu e agora integra o time dos 31 botecos que serão badalados nos próximos dias. Ele vai concorrer com um prato criado especialmente para a edição, uma porção de camarões envolvidos com uma massa de aipim.

 

– Lutei contra o tempo para achar o ponto da massa, mas só de estar participando fico emocionado. Lembro-me de onde vim. Hoje tenho a credibilidade de poucos aqui dentro – disse Ivan de Avelar, que já planeja patentear o bolinho.

 

Em sua terceira participação, o Bar do David ficou reconhecido mundialmente após o Comida di Buteco. Já foi citado pelo “New York Times”, ganhou prêmios de revistas, entrou em guia de gastronomia e já fez muita gente “subir o morro” apenas para provar seus petiscos e beber a cerveja estalando de gelada. Para a edição 2013 do concurso, David Vieira Bispo, de 40 anos, criou o Favela Chic, empanados de quatro tipos de linguiças acompanhados de chips de aipim e molhos.

 

– O concurso deu mídia e a pacificação ajudou muito, porque aqueles que queriam subir e tinham medo agora podem vir. O bar virou ponto turístico e cultural da comunidade. Já recebi muitos artistas, turistas estrangeiros e autoridades, como o prefeito de Nova Iorque – explicou David, que este ano ampliou o bar em 10 metros quadrados e planeja criar um segundo andar para comportar melhor o crescente número de clientes.

 

Satisfeito com os representantes de comunidades, o idealizador do concurso, Eduardo Maya, planeja incluir mais bares de UPPs na próxima edição do Comida di Buteco.

 

– A gente pega o mapa da cidade e vê onde está faltando representante. Queremos abarcar todo mundo. Penso que seja interessante ter 15% dos concorrentes em regiões pacificadas. Eu me preocupo em indicar bares em lugares tranquilos e que tenham a cara da comunidade. Pavão-Pavãozinho pode entrar ano que vem – afirmou Maya.

 

Bistrô no Alemão

 

No bistrô Estação R&R, no Complexo do Alemão, a experiência vai além da boa comida. O espaço, inaugurado há cinco meses, oferece 140 rótulos de cervejas importadas e nacionais artesanais. O que começou como um hobby já atrai turistas e moradores. À frente do negócio, Marcelo Ramos, de 38 anos, afirma que o que parecia loucura se transformou em sucesso.

 

– Se não fosse a pacificação não daria para manter o bistrô, não teríamos os turistas. A ideia é que as pessoas se sintam como em qualquer outro bar da cidade – disse Ramos.

 

Para acompanhar as cervejas artesanais, os clientes apostam nos bolinhos de costela e nos de feijoada, carros-chefes do cardápio. Pasteis de angu, camarão empanado e linguiças complementam as opções do Estação R&R.

 

Guia apresenta atrações das comunidades

 

Juntar a fome com a vontade de conhecer. Esse é o lema de Sérgio Bloch, um dos organizadores e idealizador do “Guia Gastronômico das Favelas do Rio”. O livro apresenta 22 estabelecimentos, entre restaurantes, bares e terraços caseiros em oito comunidades pacificadas.

 

A ideia de mapear as melhores iguarias nas comunidades surgiu durante as filmagens de um documentário. Para evitar que a equipe perdesse muito tempo para se deslocar para as refeições, começou a busca por estabelecimentos nas comunidades.

 

– Encontramos pessoas que oferecem comida de qualidade, com carinho e cuidado. Uma das características é que são pessoas que têm como primeira clientela os seus vizinhos, então ficam mais próximos também dos visitantes – explicou Sérgio.

 

O organizador do guia destaca que o objetivo da publicação é promover algum tipo de mudança para os donos dos estabelecimentos.

 

– Já voltei a lugares que estão no livro e que, incentivados pelo crescimento, fizeram reformas, ampliaram o cardápio. Tranquilamente podemos pensar em fazer mais uma edição – afirmou o autor.

 

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