Jiu-jitsu da Providência resgata jovens do tráfico e os transforma em vencedores

Pacificação trouxe a paz e esperança de um futuro melhor
 

Um projeto esportivo está mudando o futuro de um menino, que mora em um morro no Centro do Rio. Gabriel de Oliveira tem 13 anos, mas aos 11, antes da pacificação, já exercia a função de olheiro do tráfico de drogas na comunidade da Providência. O irmão mais velho chegou a ser gerente do morro, mas está preso.

 

– Me sinto legal. Agora eu fico na rua, mas é só para brincar com meus amigos. Antigamente ficava na rua pra ficar olhando para os outros (era usado como olheiro do tráfico). Ficava parado, agora eu venho para a UPP, faço uma luta, volto pra casa, descanso, jogo futebol.

 

A mãe, Flávia Maria, ao mesmo tempo em que se entristece ao lembrar o caminho errado que um dos filhos seguiu — e que o outro estava prestes a seguir — se emociona ao falar da oportunidade que o mais velho não teve, mas o mais novo está tendo.

 

“Gabriel está ajudando muito a ele, mostrando que o mundo pode ser diferente, não com coisas ruins, mas com o estudo e o esporte, e mostrando que ele pode ser uma boa pessoa”, disse Flávia.

 

Gabriel é um dos alunos do Cabo Flavio Teixeira, professor de jiu-jitsu do Morro da Providência. Segundo ele, a ideia do projeto foi do Capitão Glauco, comandante da UPP, que percebeu um número grande de crianças na porta da Unidade observando, encantadas, à beira do tatame, Flavio dar instruções de defesa pessoal para a tropa.

 

– Minha função era adestramento militar, mas o capitão me convenceu de que dar aula de jiu-jitsu seria uma boa coisa e iria ajudar na integração com a comunidade, pois as crianças seriam um canal inicial de comunicação com os pais. Eu resisti um pouco, mas acabei cedendo. Começamos com uma turma pequena de 20 alunos, esse número foi aumentando e hoje são 120 crianças no projeto – contou Teixeira.

 

Além de Gabriel, que está tendo a chance de mudar de vida, o projeto revelou um talento. Matheus Henrique da Silva tem dez anos e treina desde os oito com o Cabo Teixeira, na UPP. Em apenas dois anos, ele já fez 24 lutas. Venceu 19 e ficou em segundo em cinco. O histórico surpreendeu até o pai do menino.

 

– Eu queria que ele fizesse algum esporte, mas achei que ele não fosse se adaptar, porque sempre foi um pouco mimado. Ele não só se adaptou, como mostrou que leva jeito. A chegada da UPP foi boa, esses projetos ajudam na integração com a comunidade e meu filho está tendo uma oportunidade que eu não tive – contou Carlos Henrique da Silva.

 

Mesmo há tão pouco tempo competindo, Matheus Henrique já aprendeu a maior lição do esporte e até traçou planos.

 

– Eu gosto muito de jiu-jitsu. Fico nervoso quando vou competir. Quando ganho, fico alegre, quando perco não fico muito feliz, mas sei que faz parte. Quando crescer eu quero ser professor de educação física e de jiu-jitsu. E pretendo ensinar o que aprendi para as crianças que não sabem – falou o pequeno campeão.

 

Assim como ele, outra criança se destaca. Shellen Renata Gravino tem 11 anos e também coleciona medalhas. Já são mais de 20. A menina teve todo o incentivo da mãe para começar a competir.

 

– Na minha primeira competição minha mãe me aconselhou muito e disse que, mesmo se eu perdesse, ela tinha muito orgulho de mim. Ela disse que muita criança tem medo e nem entra no tatame, mas eu sou muito corajosa por estar ali. Ela também disse que sabia que eu ia fazer o meu melhor, eu fiz e ganhei uma medalha pra ela – contou Shellen, animada.

 

Apesar de tantas revelações e crianças talentosas, o Cabo Teixeira ressalta que o objetivo do projeto não é formar atletas profissionais, mas mostrar que é possível vencer na vida através do esporte.

 

– Tudo que fazemos aqui é para mostrar para eles que é bom ser do bem, que vale a pena ser do bem. Fico feliz quando algum pai vem agradecer, por causa da melhora do comportamento de alguma criança. Isso foi construído na relação do dia-a-dia e não tenho como mensurar o valor desse trabalho – concluiu Teixeira.

 

Governo do Rio

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