Líder comunitária mais antiga do Morro dos Macacos inicia carreira na Flupp

Aos 76 anos, dona Ana é candidata na seleção de textos da Feira Literária das UPPs
 

autora fluppO andar vagaroso e a fala mansa não deixam dúvida: dona Ana, 76 anos, já poderia ter deixado o batente há muito tempo. Afinal, lá se vai meio século de militância social. Mas a líder comunitária mais antiga e ainda em atividade no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, deus asas a um antigo sonho e tem uma nova ocupação: a de escritora. Candidata na seleção de textos da Feira Literária Internacional das UPPs (Flupp), que acontece em novembro, ela está eternizando em palavras a história da sua comunidade.

 

– Sempre tive vontade de escrever as memórias daqui para registrar a evolução da minha comunidade. Tentei até fazer um vídeo, mas não foi adiante. Nunca tivemos muitos – disse Ana Marcondes Faria, que preside o Centro Comunitário Lídia dos Santos (Ceaca) desde que o fundou, em 1983. A instituição ganhou o nome de uma parteira da comunidade.

 

Quando os “caça-talentos” da Flupp 2013 desbravaram o Morro dos Macacos em busca de escritores iniciantes para a Flupp Pensa, etapa da feira que escolherá 41 textos para um romance, um livro de poemas e outro de contos, dona Ana se animou.

 

Com papel e caneta – já que tem certa resistência a computador –, extravasou em um conto o início de sua vivência no Morro dos Macacos, onde chegou em 1958, recém-casada, “para fugir do aluguel”. Em 1962, participou da fundação da associação de moradores. Começava aí a sua caminhada no trabalho comunitário.

 

No texto, dona Ana, que nasceu no Andaraí e é viúva, descreve as dificuldades dos primeiros moradores do morro, em uma época em que as mulheres sofriam carregando nas costas enormes trouxas de roupas para lavar num riacho na Rua Borda do Mato, no Grajaú.

 

– Passava o dia inteiro lá, porque tinha que esperar a roupa secar para a trouxa ficar menos pesada. A gente fazia piquenique – recordou a líder comunitária.

 

Já nos anos 70, dona Ana começou a demonstrar a sua personalidade forte, do tipo linha dura, o que se tornaria uma de suas marcas registradas. Menores de idade viviam tentando entrar nos bailes, com conjunto musical ao vivo, organizados no morro pela associação de moradores.

 

– Comigo não entrava mesmo. Eu barrava. E eles obedeciam – afirmou Ana.

 

Como a Flupp Pensa pede um texto a cada 15 dias, para avaliação daquele que será selecionado para o livro, dona Ana não abandona a caneta. Depois alguém do centro comunitário, um dos seis filhos ou um dos netos passa a obra para o computador. O pessoal tem gostado.

 

– Eles falam ‘é, dona Ana, a senhora escreve direitinho, hein!’ – disse a moradora.

 

Gosto por escritores clássicos

 

Fã de escritores brasileiros clássicos como Machado de Assis e José de Alencar, Ana Faria espera ter um dos seus contos escolhidos pela Flupp.

 

– O que cai na rede é peixe. Gosto de ler tudo. Nossa biblioteca tem mais de mil livros. Não posso passar perto de livros que acabo pescando algum – afirmou.

 

Dona Ana está trabalhando no quarto texto para o festival. A Flupp 2013 será realizada de 20 a 24 de novembro, no Centro Cultural Wally Salomão, em Vigário Geral. O poeta que dá nome ao espaço será o homenageado desta edição.

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