Pesquisa sobre usuários de drogas

Pesquisa sobre usuários de drogas
 

Professor universitário há 25 anos, historiador, autor de diversos livros e artigos sobre administração do estado e políticas públicas, Oswaldo Munteal é um pesquisador inquieto. Sua larga experiência em pesquisas motivou o convite, em 2009, para coordenar, nas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), junto com a professora de direito Maria Paulina Gomes, estudo sobre uma temática bem diferente daquela que sempre esteve acostumado: o consumo de drogas entre jovens de 16 a 25 anos em prisões e unidades socioeducativas no estado do Rio de Janeiro.

Contemplado com recursos do edital Prioridade Rio, da FAPERJ, o projeto recebeu o nome de "Prisioneiros das Drogas – Impactos da Dependência Química sobre a juventude Brasileira" e vem sendo desenvolvido há cerca de seis meses.

– Queremos contribuir para a discussão sobre a relação entre o consumo de drogas e a criminalidade juvenil na sociedade brasileira – diz o pesquisador.
Para isso, o projeto conta com uma equipe multidisciplinar, composta por professores e alunos de direito, turismo e comunicação da Facha, médicos, especialistas e conselheiros em dependência química, do chefe da Polinter, delegado Orlando Zaccone, pessoas ligadas à Organizações Não-Governamentais (ONGs) e diversos colaboradores.

A partir de questionários aplicados em jovens dependentes químicos que cometeram delitos passíveis de punição penal, a equipe vem identificando características da realidade socioeconômica desses jovens: sua origem social, formação escolar e inserção no mercado trabalho. Com esses dados, os pesquisadores pretendem analisar a existência de relações entre a entrada na dependência química e a entrada na criminalidade, e identificar os tipos de delitos cometidos, de modo a verificar se existem relações entre o consumo de determinadas drogas e a prática de crimes específicos.

– Com base nos dados obtidos nestas entrevistas e por meio da articulação de todos os envolvidos em nosso trabalho procuramos auxiliar na formulação de políticas públicas que ajudem a minimizar os efeitos nefastos causados pelo uso das drogas – explica Munteal.

As estatísticas mostram que no início do século passado as causas mais frequentes de prisão relacionavam-se à ordem pública, como vadiagem, desordem e embriaguez. Entretanto, a partir da década de 1980, no entanto, observou-se o crescimento do número de delitos ligados ao tráfico e uso de drogas.

– Em 1985, eles foram responsáveis por três vezes mais condenações do que na década de 1960, especialmente entre jovens de 16 a 25 anos nas regiões metropolitanas do país – completa o historiador.
Inicialmente, o estudo previa a escolha de uma unidade carcerária para a realização de cem entrevistas. Entretanto, em apenas seis meses já foram realizadas em torno de trezentas nas carceragens do Grajaú, Mesquita, Neves e Nova Iguaçu. A estimativa atual é de que até o fim do ano, quando deverá ser encerrada a fase de trabalho de campo, esse número chegue a pelo menos quinhentas entrevistas, feitas em prisões e unidades socioeducativas de todo o estado.

Pesquisa investiga o que leva jovens usuários de drogas a ingressar no crime Os depoimentos são colhidos num questionário com cerca de 60 perguntas, aplicado pelo historiador, por mais 16 bolsistas da Facha e voluntários que têm procurado de alguma forma colaborar com o projeto.
Segundo alguns dados preliminares levantados pelo historiador, cerca de 80% dos presos consomem drogas nas carceragens superlotadas, em que há também um alto índice de problemas de pele, tuberculose e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

– Vale destacar um dado curioso: cerca de dois terços dos interno entrevistados, ao serem presos pela primeira vez por posse de drogas ou tráfico, ainda não haviam cometido crime com uso de violência armada – explica o historiador.

Para Munteal, esse é um ponto a ser investigado na pesquisa: em que momento a entrada do usuário de drogas no mundo do crime passa a ser associada à violência.
Com duração prevista de dois anos, o Prisioneiro das Drogas está sendo desenvolvido em várias direções. Um site com informações sobre dependência química entre os jovens e dados sobre a pesquisa já está no disponível no endereço http://www.prisioneirosdasdrogas.org.br. Em agosto, foi realizado na Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj), com apoio da FAPERJ e do Núcleo de Controle de Presos da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (Nucop/Polinter), um seminário para apresentar e discutir os resultados preliminares do projeto.

Segundo Munteal, o sucesso do evento superou todas as expectativas.
– Tivemos não somente a presença de professores, estudantes universitários e especialistas em dependência química, mas também de representantes dos governos estadual e municipal, das polícias civil e militar, de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e representantes de associações de moradores de favelas. Até o delegado Orlando Zaccone, chefe da Polinter, se prontificou a facilitar o acesso de nossa equipe às carceragens do estado, onde estamos realizando as entrevistas – completa.

Outra vertente é a implantação de um Centro de Assistência Jurídica para auxiliar dependentes químicos com problemas com a justiça. Com atendimento totalmente gratuito, o espaço tem atendido principalmente populações carentes do entorno da universidade.

– Sob a coordenação do advogado Marcelo Turra, o centro já se encontra em pleno funcionamento nas dependências da Facha (Rua Muniz Barreto, 51, Botafogo). Alguns moradores do Morro Santa Marta já vieram pedir auxílio – acrescenta.
Os bolsistas também têm ajudado na elaboração de uma campanha publicitária voltada a alertar os jovens sobre o uso de drogas.
– E até o final de 2010, concluiremos uma cartilha sobre o assunto, com tiragem de 10 mil exemplares, que será distribuída em escolas públicas e particulares do estado – fala.

De caráter didático, ela procurará responder às dúvidas mais frequentes sobre drogas, servindo de parâmetro para que familiares e outras pessoas próximas a usuários possam identificar as características mais comuns dos dependentes químicos, com vistas ao início de um tratamento.

Fonte: Governo do Rio

0 comentários

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.