Pranchas e meio ambiente no foco

Produção de pranchas e meio ambiente
 

No último sábado, 17 de abril, a Feserj (Federação de Surf do Estado do Rio) em parceria com a Sociedade Brasileira de Shapers (SBS), a Organização Surfe do Brasil (O’SURFE) e a Marbras Et Mundi, reunivançada u shapers e surfistas no Auditório do Centro de Referência em Educação Ambiental de Marapendi, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio, para apresentar a última geração em máquina de shape construida no Brasil, a tecnologia do programa Shape3D e o projeto Ecobloc.No encontro, estiveram presentes o criador do programa Shape3D, o francês Thomas Wilmin, e o pesquisador carioca radicado em Florianopólis Paulo Eduardo Antunes, Mestre em Engenharia Ambiental e Coordenador do Projeto Marbras Et Mundi, que está divulgando o projeto piloto de um centro comunitário com a utilização de blocos de concreto fabricados com recuperação de resíduos da produção de pranchas. 

Pranchas em terceira dimensão

Considerado pelos mais experientes profissionais como o programa mais avançado do mundo há mais de 15 anos, o Shape3D é a ferramenta que faltava para tornar o processo de fabricação de pranchas ainda mais eficiente. Segundo o shaper Henry Lelot, diretor da Shape3d no Brasil, a empresa pretende aliar as vantagens do programa com os benefícios da nova máquina de shape, para oferecer um serviço de usinagem de primeira linha aos shapers cariocas.

A máquina, que tem capacidade para usinar pranchas e todo o tipo de equipamento náutico, como ate mesmo barcos e caiaques, de todos os tamanhos até 14 pés x 34 polegadas de largura máxima, está sendo instalada na sede da O’Surfe, na praia da Macumba.

Com tecnologia nacional e construída com o que há de mais moderno no mundo, a nova máquina usina a borda completa e corta ate mesmo a longarina, levando o pré-shape a um patamar nunca antes visto no Brasil. “Nosso projeto prevê a instalação de, ao menos uma máquina de shape em cada região, prestando serviço a todos. É claro que vai estar à venda para qualquer shaper que se interesse, inclusive por um preço super acessível, em torno de 29 mil reais”, salienta Lelot.

Já o programa Shape3D permite ao shaper desenhar suas pranchas no computador, como se estivesse na sala de shape. A prancha pode ser desenhada em até três ângulos simultâneos, mostrando todas as partes da prancha, permitindo sua visualização em terceira dimensão. O shaper pode girar a imagem para que esta possa ser observada por qualquer ângulo, com recursos de renderização (esquadrinhamento), iluminação e zoom. Isso irá facilitar a identificação de bumps (quebras de linha nas curvas da prancha).

Ecologicamente correto, o Shape3D contribui com o meio ambiente ao permitir a sobreposição do desenho sobre o bloco a ser utilizado, antes da usinagem, garantindo que a prancha seja cortada somente caso o desenho se encaixe adequadamente ao bloco, garantindo precisão nas medidas e evitando prejuízos financeiros. Inspirado em programas oriundos da indústria aeronáutica, o Shape3D permite ainda avaliar as curvas desenhadas minimizando o "drag" (arrasto Hidrodinâmico)  e escolher a unidade de medida a ser utilizada (fração ou decimal de polegada, centímetro, etc).

Qualquer pessoa pode se cadastrar no site e baixar a versão "light" do programa, gratuitamente pela internet (www.shape3d.com), ou solicitar a versão completa para avaliação por 30 dias, sem custo algum ( sbs_shapers@hotmail.com ).  

Surfe sustentável

Incorporar o inconsciente coletivo à noção de que, sem conservação não há futuro, é imprescindível não só para a comunidade do surfe atual, mas para toda a sociedade e gerações futuras. O surfe e suas origens sempre transmitiram valores em que natureza e bem estar são fundamentais para uma vida saudável.  O que muitos não sabem é que essa indústria, somente no Rio de Janeiro, produz cerca de 28 mil pranchas por ano , e aproximadamente 50% do material consumido é desperdiçado, produzindo uma média anual de 214 toneladas de resíduos tóxicos.

No entanto, estes materiais poderão se transformar em matéria-prima, minimizar impactos ambientais e retornar ao mercado¸ por meio de um novo ciclo econômico, gerando oportunidade de trabalho, renda e promoção institucional para o Rio de Janeiro, além de economizar cerca de 4,28 milhões de dólares por ano.

O projeto piloto, estudado e desenvolvido pelo mestre em engenharia ambiental, Paulo Eduardo Antunes, será implementado pela Marbras Et Mundi, através de parceria com a Feserj, a Sociedade Brasileira de Shapers e a ONG Organização Surfe do Brasil. Trata-se de uma edificação com 150m²¸ que será construída com Ecoblocs (blocos de concreto desenvolvido com resíduos de pranchas de surfe), por meio de mutirão com residentes da Comunidade do Terreirão, praia da Macumba. O espaço será então transformado em um núcleo de desenvolvimento sócio-ambiental, com a realização de atividades artísticas, desportivas e de capacitação profissional e pode ser replicado em outras comunidades.

“Os resíduos, que deveriam ir para um aterro industrial, são despejados em aterros simples ou lixões, o que é altamente perigoso, já que traz sérios impactos não só para o meio ambiente, mas para a saúde de todos caso não recebam o tratamento ambiental adequado. Estes materiais poderão ser recuperados e reutilizados, ainda mais considerando que o surfe depende da natureza, então é um dever até espiritual cuidar do nosso habit natural”, explicou Paulo Eduardo.

De acordo com Abílio Fernandes, Vice-Presidente da Feserj, não há solução para tais problemas sem que haja uma ação efetiva que proporcione causa e efeito. “Sempre houve um trabalho de conscientização nas praias, mas o problema não acaba nunca, pois as pessoas continuam com o ciclo vicioso. Mas quando se viabiliza um projeto como este de reciclagem, que vai atuar efetivamente eliminando um problema, ainda mais se aproveitando os resíduos para o mercado, é realmente um trabalho para o desenvolvimento sustentável”, garantiu Abílio.

Na primeira etapa, as empresas receberão um incentivo por meio de uma pré-certificação denominada `compromisso ambiental`, que caracterizará a adesão das fábricas de pranchas a um Sistema de Gestão Ambiental e após cumpridas todas as prerrogativas deste SGA, as empresas receberão o selo definitivo de `excelência ambiental`, o Certificado de Compromisso Ambiental, com o selo ISO SURF de excelência. “Podemos sensibilizar as pessoas, mas conscientização é um processo individual, é de cada um. Que tipo de herói é esse que está dentro d’água imerso, curtindo um tubo e, em paralelo está gerando toneladas de lixo tóxico, prejudicial ao meio em que vivemos… É contraditório”, argumentou o mestre em engenharia ambiental e surfista Paulo Antunes, local do Rio de Janeiro mas residente em Florianópolis, Santa Catarina.

“A idéia é ótima, o mais difícil é que as coisas só começam a funcionar quando se torna um hábito, a sociedade ainda não estás preparada para limpar o nosso planeta da sujeira que fazemos. Existe um mau armazenamento e podemos sim ser os pioneiros. O importante é começar com este projeto, que a cada dia se torna uma voz forte e necessária, pois já estamos dentro de um limite para melhorar nossas condições de vida”, disse o shaper Daniel Friedmann.

Para Jorge Araújo, diretor de meio ambiente da Feserj, o verdadeiro espírito do surfista está devendo muito à natureza. “Fiquei muito feliz em ver um projeto como esse, pois a sociedade imagina que o surfe é ecologicamente correto, mas na prática não é bem assim. No Grumari, por exemplo, um parque tombado e preservado, as pessoas não respeitam e jogam lixo na praia, no chão. Estamos sempre promovendo a educação, mas a participação dos surfistas é muito pequena, a maioria não está integrada e ainda continua poluindo. Além do lado de quem produz  e gera resíduo, por não saber o que fazer com o lixo, tem o trabalho social, árduo e fico animado com a possibilidade de diminuir esse impacto”, disse Jorginho que também é e diretor-fundador da ASAG (Associação dos Surfistas Amigos do Grumari).  

Fonte: O Surfe

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