Início Plantão Brasil ‘ContraCapa’: o caminho entre a ideia e a charge

‘ContraCapa’: o caminho entre a ideia e a charge

 

É só olhar a capa para ver que horas os jornais diários são fechados para que, no dia seguinte, estejam nas bancas com as notícias mais quentes sobre o país e o mundo. Num ritmo em que os trabalhos adentram madrugadas, se engana quem pensa que os chargistas não vivem a mesma rotina dos jornalistas. Com 34 anos de profissão, muitos deles dedicados ao jornalismo, o desenhista Luiz Carlos Fernandes, do Diário do Grande ABC, já está acostumado a iniciar parte de seu trabalho após a reunião de pauta, que acontece, geralmente, depois das 20h. “Você acostuma e fica viciado. Quando estive longe de redação, fiquei meio maluco”, brinca. É com clima bem humorado que o profissional recebe a reportagem do Comunique-se na sede do impresso, em Santo André (SP), para contar como são os bastidores do trabalho de quem faz críticas em desenho.

 

 

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(Imagem: Ricardo Trida)

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Não há quem não fale com Fernandes no prédio do Diário. Simpático, ele sempre tem por perto algumas folhas em branco, no estilo sulfite, lápis e caneta. Enquanto as ideias da charge não “chegam”, os amigos da redação viram protagonistas de seus desenhos. A atenção no que é dito entre jornalistas e editores na reunião de pauta é o trunfo do chargista, que dali já sabe o que pode ou não render ilustrações. De maneira discreta e rápida, os papeis são preenchidos com traços e o que pode virar arte ganha prévia. “Vou reunindo os elementos com as informações passadas pelos repórteres. Quando recebo ‘OK’, volto para a minha mesa para melhorar a ideia e fazer as mudanças necessárias”.

 

 

 

Do início de sua carreira até agora, muitas coisas mudaram. Atualmente, as referências de Fernandes são buscadas digitalmente, por meio do Google. “Trabalhei em uma banca e as revistas eram minhas referências”. No caso do chargista, as novas tecnologias trouxeram muitos benefícios, sobretudo porque o profissional é daltônico. Antes dos computadores, era de responsabilidade de sua mulher marcar os lápis para que o trabalho não tivesse nenhum erro de cor. “Passei por situações complicadas. Uma vez, estava trabalhando de madrugada e precisei pegar uma caixa de lápis nova, mas não quis acordá-la. Acabei pintando o rosto dos políticos de verde. A arte era para a capa da Revista Primeira Leitura. Precisei refazer tudo”. Amante das “antigas práticas”, ele ainda conta com a parceria da mulher para seus trabalhos mais autorais.

 

 

 

------------------------IMG 3771-2(Imagem: Nathália Carvalho)

 

O processo de seu trabalho no Diário do Grande ABC é realizado, em primeiro momento, no papel. Os traços são feitos a lápis, recebem contorno em caneta preta e só depois são digitalizados e pintados no photoshop. “Nunca tentei usar o tablet para desenhar. Demoro muito com as novas tecnologias. Esses dias que eu aprendi a trabalhar com o photoshop”, diz aos risos apontando para a tela do computador. “Vou colocar aqui em cima um texto para ambientar o leitor, mas eu não gosto disso em charge. É como contar uma piada e ter de explicar. Quando você deixa para o leitor sacar, você brinca com a cabeça dele”.

 

 

 

 

Com uma xícara de café nas mãos, passa ao lado da mesa de Fernandes o editor-chefe do jornal, Evaldo Novelini, que, ao ser chamado, retorna, vê a arte e aprova. “Ficou muito boa”, disse o jornalista. O desenho segue, agora, para a finalização e depois para a pasta com imagens no sistema. “A situação e como você vai ambientar o personagem precisam ser prioridades para não causar confusão na cabeça do leitor. Tem a expressão de cada personagem e diversos detalhes”, explica o cartunista. Detalhes esses que vão até a sombra de todos os elementos da imagem, que ele não esquece. “Eu era criança e na aula de artes a professora disse para fazer um desenho livre. Fiz uma pera linda, com a maior preocupação em ser real, e ela disse ‘essa pera está voando? Cadê a sombra dela?’. Ela nem olhou o meu trabalho, só viu que não tinha sombra. Depois disso, nunca mais me esqueci de colocar (risos)”.

 

 

------------------------IMG 3788-2(Imagem: Nathália Carvalho)

Em sua avaliação, a parceira com o editor é essencial e ele comemora por ter dito bons profissionais ao seu lado. “Aqui ilustramos páginas de opinião. É a minha perspectiva sobre o assunto e tem que ter o crivo do editor do jornal. Sempre que faço uma ilustração, gosto sempre de acrescentar alguma coisa, além do texto do jornalista. Tem que ter senso, não pode colocar nada que choque o leitor. Tem que tomar cuidado com o seu ‘próprio pré-conceito’ sobre as coisas e isso você vai aprendendo aos poucos. O jornal sem charge fica sem graça. A ilustração é indispensável”.

 

 

------------------------IMG 3800-2(Imagem: Nathália Carvalho)

 

 

Quando questionado sobre a importância do impresso em sua vida, o chargista não hesita. “O jornal significa tudo para mim. Criei minha carreira inteira, aprendi muito, criei meus filhos. O jornal me deu tudo que tenho”. Ele comenta que não sabe como será o futuro, mas por causa do trânsito, acredita que os trabalhos serão feitos no estilo home office, o que para ele será grande prejuízo: “É preciso estar aqui, participar da reunião de pauta e conversar com os colegas”.

 

 

 

A charge para a edição do dia seguinte do jornal estava pronta. O trabalho de Fernandes, porém, seguiria dali para frente com desenhos para o caderno ‘Diarinho’ e a área de ‘Divirta-se’ do Diário do Grande ABC.

 

 

-----------artelfernandes(Arte: Luiz Carlos Fernandes)