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Diagnóstico precoce da hanseníase ganha aliado

A hanseníase, conhecida como a doença mais antiga do mundo ou, popularmente, como lepra, afeta a humanidade há pelo menos quatro mil anos. No entanto, o seu diagnóstico precoce, fundamental para reduzir o risco de lesões irreversíveis nos nervos do paciente, ainda é um desafio.

Uma pesquisa desenvolvida na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – com apoio da FAPERJ, por meio dos editais Jovem Cientista do Nosso Estado e Apoio a Grupos Emergentes de Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro –, vem utilizando a técnica de PCR em tempo real para diagnosticar mais rápido a presença da Mycobacterium leprae, a bactéria causadora da hanseníase, e também estimar quais as chances reais do indivíduo, de fato, desenvolver a doença.

O estudo adaptou a técnica de PCR em tempo real – sigla em inglês para reação em cadeia de polimerase –, já utilizada em testes laboratoriais de outras doenças, para o diagnóstico da hanseníase.

– Com essa técnica, analisamos amostras de tecido da pele do paciente e verificamos a carga bacteriana, pela identificação e quantificação do DNA e do RNA da Mycobacterium leprae. É possível detectar assim a doença precocemente, mesmo nos casos de difícil diagnóstico pelos métodos convencionais – explica o professor Milton Ozório Moraes, do Laboratório de Hanseníase do Instituto Oswaldo Cruz, destacando que, por ser em tempo real, a investigação genética ganha mais especificidade e sensibilidade.

A metodologia, além de identificar a presença da bactéria, também avalia a viabilidade do Mycobacterium leprae no organismo, ou seja, sua capacidade de desenvolver ou não a doença e de ser transmitida a outras pessoas.

– Utilizando a técnica de PCR em tempo real, conseguimos ver, pelo RNA, não só se a bactéria está viva, mas se ela está apenas dormente – diz Milton, coordenador da pesquisa.

– Podemos fazer análise de amostras de pacientes e familiares e ver quem carrega o DNA do Mycobacterium leprae. É uma detecção muito sensível, que pode ajudar na indicação de um tratamento mais precoce, para evitar que a doença se agrave e cause danos na pele e nos nervos – completa.

A hanseníase, atualmente, é diagnosticada por meio de exame histopatológico (exame histológico de amostras da pele do paciente) combinado com avaliação clínica. Nos casos de pacientes sem lesões na pele – caracterizados como paucibacilares ou portadores da forma neural pura da doença –, o diagnóstico torna-se mais difícil. Diante da imprecisão da detecção histológica, devido às variações do aspecto clínico dos casos, a nova técnica molecular desenvolvida no IOC pode ser uma grande aliada para confirmar a presença da hanseníase o quanto antes.

O estudo foi realizado em colaboração com a Universidade Estadual da Louisiana, nos Estados Unidos, onde a bióloga Alejandra Martinez, orientada por Milton, experimentou o método em testes laboratoriais, durante seu estágio de doutorado sanduíche, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O trabalho rendeu uma publicação no Journal of Clinical Microbiology, em 2009.

– Ela ajustou a tecnologia de PCR em tempo real para o estudo específico da hanseníase e fez os primeiros testes lá. Quando voltou, a técnica foi adaptada às condições do nosso laboratório na Fiocruz – conta Milton, lembrando que as amostras analisadas são de pacientes com hanseníase atendidos na própria Fiocruz, no serviço do Ambulatório Souza Araújo.

A hanseníase está no grupo das chamadas "doenças negligenciadas", isto é, aquelas que, segundo a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), atingem predominantemente ou exclusivamente populações de países em desenvolvimento. Além da hanseníase, enquadram-se nessa classificação a dengue, doença de Chagas, tuberculose, esporotricose, esquistossomose, febre amarela, malária, leptospirose, leishmaniose, paracoccidiose e riquetsiose.

Essas doenças, associadas às más condições de vida, não recebem a atenção devida das indústrias farmacêutica e biotecnológica, responsáveis pela produção de vacinas, medicamentos e kits de diagnóstico. No Rio de Janeiro, a ocorrência de hanseníase é maior do que a recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

– Aqui no Rio, temos cerca de 15 pessoas com hanseníase para cada 100 mil habitantes. Esse número, no entanto, tem diminuído gradativamente – aponta o professor.

Na antiguidade, os portadores da doença eram vistos como pessoas que receberam castigo de Deus por algum pecado cometido. Durante muitas décadas do século XX, o paciente portador de hanseníase viveu ainda sob o estigma da doença, sendo conduzido compulsoriamente ao isolamento social em hospitais colônias conhecidos como leprosários.

– Atualmente, a hanseníase é curável e tem tratamento gratuito. Muitas vezes, porém, a pessoa infectada só vai descobrir que é portadora dois a cinco anos depois da infecção, quando os sinais da doença se tornam mais visíveis na pele – diz.

Milton destaca que é preciso estar atento a qualquer alteração na pigmentação e na sensibilidade da pele.

– Uma vez diagnosticada a hanseníase, seu tratamento, de aproximadamente um ano, não deve ser interrompido em nenhuma hipótese – alerta.

– Geralmente são recomendados o uso de três medicamentos, que funcionam como antibióticos – completa o professor, lembrando que a transmissão da doença ocorre pelas vias aéreas.
 

 

Fonte: Governo do Estado RJ