Início Cultura ‘’Fúria Primitiva’’: Vingança é um prato que se come com curry!

‘’Fúria Primitiva’’: Vingança é um prato que se come com curry!

Por Marco de Cardoso

Policiais corruptos e violentos. Líderes religiosos cínicos e gananciosos. Moradores de rua sobrevivendo na mendicância. Crianças abandonadas furtando pelas calçadas. Disputas violentas por terra. Fome, miséria, desesperança…ufa!

Parece ‘’um país que você conhece?’’. Pois é…mas é a Índia o cenário do thriller de ação ‘’Fúria Primitiva’’  que chega aos cinemas brasileiros.

O filme é o primeiro trabalho como diretor do talentoso ator britânico de origem indiana  Dev Patel, que se tornou mundialmente conhecido com o aclamado “Quem Quer Ser um Milionário?”(vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2009) e consolidou sua posição em Hollywood com “O Atentado ao Hotel Taj Mahal”(2018). Neste novo projeto, Patel não apenas dirige, mas atua e ainda co-assina o roteiro em parceria com Paul Angunawela e John Collee.

MONKEY MAN, directed by Dev Patel

O longa-metragem apresenta a história de Kid (ou Bobby, o nome falso que ele ‘’rouba’’ de uma marca de material de limpeza) um jovem que presencia a brutal execução de sua mãe por um delegado corrupto a serviço de um líder religioso poderoso, cínico e egoísta. Este falso profeta ‘’sem Deus no coração’’ mas com a alma lotada de ganância desmedida, não hesita em massacrar centenas de pobres agricultores para tomar suas terras, em conluio com autoridades igualmente desonestas. A dor e a raiva de Kid/Bobby marcam (literalmente) seu corpo e sua jornada de vingança é desencadeada por essa perda devastadora.

MONKEY MAN

Para ganhar a vida Kid/Bobby incorpora um lutador num clube clandestino de ‘’vale tudo’’ na fictícia cidade indiana de Yatana(palavra em sânscrito que significa ‘’vingança’’) e toda noite entra no ringue com uma máscara(quase de carnaval..) de  macaco, se tornando saco de pancadas para apostas manipuladas pelo dono do clube. Esta rotina de Kid/Bobby sendo continuamente derrubado e levantando, sacudindo a poeira e dando a volta por cima é também uma metáfora da resistência dos ‘’fracos e oprimidos’’ contra o Mal encarnado em autoridades vigaristas.

A trama se intensifica quando ele consegue se infiltrar para trabalhar num clube VIP de prazeres proibidos, onde o jogo, as drogas e a prostituição são apenas algumas das tentações oferecidas. Entre os frequentadores desta ‘’gaiola dourada de luxúrias’’ estão os poderosos que destruíram a vida de sua mãe e de tantos outros e a ‘’vendetta’’ parece mais próxima. No entanto, inicialmente seu plano falha de maneira absolutamente desastrosa e ele quase é morto pelos vilões, mas consegue se safar numa louca escapada e encontra refúgio num templo hindu habitado por uma ’’casta’’ de transsexuais, um grupo marginalizado e tratado como ‘’párias’’ pela sociedade.

Nesta parte do filme, vemos ‘’o ponto de virada’’ do personagem, que na melhor linha  “Karatê Kid”, treina uma pegada dura de artes marciais, se preparando para novo confronto com os malfeitores. A transformação de Kid/Bobby não é só física, mas também espiritual e se torna completa quando ele retorna aos ringues, mas agora não mais como um ‘’perdedor’’, mas sim como uma ‘’encarnação’’ do invencível  deus macaco Hanuman do folclore hindu.

E partir daí ‘’o pau canta na casa de Shiva’’, com a narrativa entrando numa catarse espiral de tirar o fôlego. Depois de ‘’escovar’’ seus adversários nas lutas e se tornar ‘’ídolo da galera’’, Kid/Bobby invade o ‘’cassino cabaré’’ dos mafiosos, como uma espécie de ‘’John Wick do Indo-Pacífico’’, quebrando tudo que encontra pelo caminho.

E mesmo quando não tem arma de fogo o vingador ‘’se vira nos 30’’, apelando para o que estiver a mão: facas, cutelos de cozinha, cacos de vidro, vaso sanitário(!!) e até uma bandeja(??) para extirpar o mal pela raiz.

Cada movimento é coreografado com precisão intensificando ainda mais a ação. A cena em que Kid/Bobby, agora o ‘’Homem-Macaco’’(Monkey Man, título do filme em inglês), ‘’neutraliza’’ dois leões de chácara dentro de um elevador ao som de um clássico antigo da disco music é de um sarcasmo tão bem sacado que vale o ingresso.

E o acerto de contas final com seus arqui-inimigos, o policial facínora e o guru sem escrúpulos, é de dar inveja aos duelos dos spaghetti western de Clint Eastwood.

Dev Patel tem uma atuação visceral e quase perfeita no papel principal. Os coadjuvantes também dão um show com destaque para os excelentes atores indianos:  Sikandar Kher, que faz o delegado psicopata Rana, Makarand Deshpande que encarna o guru picareta Baba Shakti, Pitobash Tripathy, que faz Alphonsus o amigo de Kid/Bobby e Ashwini Kalseka na pele de Queenie Kapoor, uma mistura de ‘’socialite do Instagram com cafetina’’ que é a dona do clube onde os gângsteres se reúnem.

A fotografia com cores quentes e vibrantes e os efeitos especiais dão um toque de excelência à ‘’película’’, realçando a paisagem da Indonésia, onde foram feitas as filmagens.

‘’Fúria Primitiva” é uma obra que tem o grande mérito de conseguir misturar crítica social engajada com ação cinematográfica de qualidade, numa narrativa bem construída, ‘’temperada ao molho curry’’, que garante o paladar inconfundível de diversão genuína e saborosa.

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Marco de Cardoso é Diretor Cultural da AIB – Associação da Imprensa do Brasil