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Mel produzido no estado passa por avaliação

O mel sempre foi considerado um produto especial ao longo da história. Evidências de seu uso pelo ser humano aparecem desde a pré-história, em pinturas rupestres e em manuscritos do antigo Egito, Grécia e Roma. No Brasil, o consumo per capita anual é de 250 a 300g entre a classe alta e média, sendo que a região Sul apresenta o maior consumo médio.

O país produz aproximadamente 50 mil toneladas de mel ao ano, das quais metade é exportada, principalmente para os Estados Unidos, Alemanha e Europa, de acordo com a Confederação Brasileira de Apicultura. No estado do Rio de Janeiro, a produção é de cerca de 442 toneladas de mel ao ano.

Para estimular o potencial de desenvolvimento no setor, um projeto de inovação que envolve uma parceria entre a Universidade Federal Fluminense (UFF) e associações de apicultores do estado do Rio de Janeiro está traçando o perfil do mel fluminense.

A partir do diagnóstico de suas características, será possível estabelecer parâmetros específicos para o controle da qualidade do produto e, assim, facilitar a sua comercialização no mercado nacional e internacional.

– O objetivo da pesquisa é avaliar os méis produzidos em diferentes regiões do estado do Rio de Janeiro por meio de análises sensoriais, microbiológicas, polínicas e físico-químicas – explica a professora Mônica Queiroz, da Faculdade de Veterinária da UFF, que recebe apoio da FAPERJ por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado.

– A iniciativa visa valorizar a apicultura estadual e consequentemente a nacional, incentivando o seu crescimento, diretamente relacionado ao incremento dos setores envolvidos e do volume da produção – completa a doutora em Ciência e Tecnologia dos Alimentos pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).

As amostras de mel avaliadas pelo projeto são originárias de sete regiões do estado: Metropolitana, Noroeste Fluminense, Norte Fluminense, Baixada Litorânea, Médio Paraíba, Centro-Sul Fluminense e Serrana – descartando a região da Costa Verde. As regiões foram escolhidas de acordo com os critérios do Censo Apícola de 2005, realizado pela Secretaria de Estado de Agricultura, Abastecimento, Pesca e Desenvolvimento do Interior do Estado do Rio de Janeiro.

– Essas regiões compreendem 75 municípios, que têm 1.411 apicultores cadastrados. O quantitativo produtivo por região coloca em destaque o Médio Paraíba (18,94%) e Centro-Sul Fluminense (18,91%) – diz Mônica, lembrando que a produção de mel no estado é realizada principalmente por pequenos produtores e corresponde a 90% da produção total obtida no estado entre os produtos apícolas, com 61,5% do beneficiamento realizado no próprio apiário.

O aroma, o paladar, a coloração, a viscosidade e as propriedades medicinais do mel estão diretamente relacionados com a fonte de néctar que o originou e também com a espécie de abelha que o produziu, além do clima. A primeira fase do estudo, em andamento, é a avaliação físico-química.

Estão sendo analisadas amostras de mel de diferentes floradas dessas regiões, coletadas durante o período de um ano, no Laboratório de Controle Físico-Químico de Produtos de Origem Animal da Faculdade de Medicina Veterinária da UFF.

– Nessa etapa, estão sendo avaliadas características físico-químicas, como o pH, a umidade, a acidez, as cinzas, a cor, os glicídios redutores em glicose e os não redutores em sacarose, e a viscosidade. A preocupação é garantir que o mel utilizado no estudo seja realmente puro, já que muitos produtores misturam o produto original com melado para render mais – conta.
A segunda etapa será a análise polínica dos méis, necessária para definir e garantir sua origem botânica e suas propriedades.

– Esta análise tem como objetivo reconhecer os tipos polínicos encontrados nas amostras e, a partir deles, chegar às espécies vegetais que os produziram, bem como à vegetação de interesse apícola ao redor de um apiário – diz Mônica.

Esta análise será realizada no Laboratório de Palinologia do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Laboratório do Grupo de Ultraestrutura e Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

– Entre os tipos de florada característicos do mel fluminense destacam-se a silvestre (17,8%), que reúne vários pólens de plantas nativas, a assa-peixe (13,0%), a erva-canudo (10,5%), a de eucalipto (9,3%), alecrim (8,6%), morrão-de-candeia (8,3%), vassourinha (8,0%) e cambará (7,8%), entre outras – aponta.

Uma análise sensorial dos méis coletados será realizada a partir do segundo semestre, além de análises estatísticas. O projeto vai oferecer qualificação específica para formar uma equipe de cerca de 50 degustadores de mel.

– Na área sensorial de mel, não há muitos profissionais especializados no mercado fluminense – pondera Mônica, lembrando que a principal espécie de abelha produtora é a Apis mellifera.
– No caso brasileiro, a espécie mais comum é um híbrido entre abelhas europeias e africanas.
Para Mônica, criar um padrão de qualidade para as floradas do Rio de Janeiro – que variam em função da estação do ano e da localização – vai viabilizar a criação de um selo de qualidade para o mel produzido no estado.

– Será o primeiro passo para exigir do produtor um padrão específico para cada florada do nosso estado. Com isso, vamos agregar bastante valor ao produto e incrementar a exportação do mel fluminense para o mundo – conclui.

A equipe que trabalha no projeto coordenado por Mônica é a mestranda Laís Buriti de Barros (coleta das amostras, realização das análises sensoriais, físico-químicas, microbiológicas, preparo das lâminas para realização da análise palinológica, organização dos dados e divulgação dos resultados); a aluna de graduação e integrante do Programa de Incentivo a Bolsa de Iniciação Científica Fernanda Romano Torres (realização das análises sensoriais, físico-químicas e microbiológicas); Laerte da Cunha Azeredo (co-orientação do trabalho); Ortrud Monika Barth (realização das análises polínicas) e Eliane Teixeira Mársico (supervisão das análises físico-químicas).

Fonte: Faperj