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Musicoterapia é utilizada por grupo de estimulação de linguagem na Unidade Saúde-Escola da UFSCar

Atividades que relacionam Música, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional de forma transdisciplinar, a fim de estimular os componentes cognitivos da linguagem em adultos e idosos com afasia. É o que realiza um dos grupos terapêuticos da Unidade Saúde-Escola (USE) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Sob o comando das servidoras técnico-administrativas Helen Capeleto Francisco Machado e Tania Cristina Fascina Sega Rossetto, respectivamente fonoaudióloga e terapeuta ocupacional, com especialização em Musicoterapia, as atividades do “Grupo de Estimulação da Linguagem de pessoas com afasia por meio da musicoterapia” acontecem toda semana com pessoas que apresentam comprometimento na linguagem causado por sequelas advindas de algum problema de saúde – a maioria dos pacientes atuais sofreram acidente vascular cerebral (AVC).

 

 

A afasia é a perda da capacidade, em algum nível, de produzir ou compreender a linguagem, devido a lesões nas áreas do cérebro que comandam esta função. O termo, originário do grego, que significa “sem palavra”, corresponde à dificuldade do paciente em falar, compreender o que ouve, escrever, ler e se comunicar de forma geral. É neste sentido que o grupo atua. Por meio de exercícios e atividades os participantes se comunicam entre si, de forma lúdica e socializada para desenvolver suas potencialidades e conseguir manter uma forma de comunicação com o mundo que o cerca a partir da nova condição em que está inserido.

 

As coordenadoras do grupo explicam que a cada encontro um novo tipo de atividade é realizado. O foco principal é a Musicoterapia, mas também utilizam jogos e outras ferramentas para estimular as linguagens oral e escrita. Tania conta que em alguns momentos toca-se musica folclórica, que são músicas bem conhecidas, para que os pacientes reconheçam e tentem lembrar de memória a letra da música e cantar junto. “A gente toca e canta com eles para estimular a verbalização e, a partir do tema da música, iniciamos uma roda de conversa, trazendo também as memórias e as vivências de cada um”, relata. As canções acompanham as festividades do ano, ou ainda, são pedidas pelos próprios pacientes, sendo músicas que eles gostavam de ouvir, cantar e dançar na juventude. A proximidade da música com a vivência deles estimula ainda mais a memória que, por sua vez, é transmitida ao grupo por meio da conversa.

 

O tocar e cantar não apenas auxiliam a fala. Alguns deles têm dificuldades de compreender o que está sendo cantado, por isso, muitas vezes acompanham com a letra da música, para, com a leitura, encontrar em que parte da música estão e o que cada palavra significa. A música auxilia também na coordenação corporal, ao tocar algum instrumento como um chocalho ou reco-reco, na entonação da voz e no ritmo da fala. Desta forma, além de estimular as linguagens oral e escrita, o maior objetivo do grupo é estimular a expressão. Cada pessoa se expressa a seu modo e com as suas habilidades durante o transcorrer da música, seja tocando, cantando, fazendo movimentos ou verbalizando algum trecho que consiga. A música é utilizada ao mesmo tempo como ferramenta para o desenvolvimento e como canal de comunicação.

 

Esta transdisciplinaridade que acontece no grupo é a base das atividades realizadas pela USE. No caso deste grupo, a união dos conhecimentos da fonoaudiologia e da terapia ocupacional são permeadas pelas potencialidades que a música traz. Entretanto, esta mescla não se restringe a este ambiente. O que é realizado no grupo é levado pelas profissionais para outros atendimentos, assim como as demais propostas da Unidade. Cada equipe trabalha com mais de um olhar sobre o que o atendimento necessita, não se restringindo a apenas uma área do conhecimento ou profissional. Este procedimento é chamado de Linha de Cuidado, o qual é constituído por um conjunto de ações construídas e conduzidas de forma interdisciplinar e multiprofissional, que se baseia na integralidade, necessidades e especifidades de cada grupo ou usuário, seguindo um projeto terapêutico elaborado inicialmente pelos profissionais com a participação do paciente. A Linha integra não apenas a saúde, mas também ações de educação e assistência.

 

As atividades realizadas com os usuários também não se restringem ao ambiente da USE. Muito do que eles fazem é incentivado a praticar em casa. Em alguns encontros eles levam para casa a letra da música que foi trabalhada para dar continuidade ao que foi desenvolvido. Em determinada situação foi gravado um CD com os próprios pacientes cantando, que eles puderam levar para casa, juntamente com as letras das canções, e mostrar para a família. Esta atividade auxilia no fortalecimento da autoestima e da autopercepção. Helen afirma que o esperado “é fortalecer as potencialidades deles e valorizar o que eles conseguem, coisa que eles mesmos vão apontando um para o outro.”

 

Atualmente o grupo conta com seis pacientes e está com vagas abertas para os que já estão em lista de espera. O cadastro é feito a partir do encaminhamento pela rede de saúde pública para a Fonoaudiologia ou por encaminhamento interno, quando um paciente que não é atendido em grupo está em um estágio que necessita dessa convivência para a evolução do acompanhamento. Cada caso é avaliado e as responsáveis pelo grupo determinam quais podem ser inseridos neste contexto. Dependendo do caso é importante para o paciente estar em grupo, pois ali será desenvolvida a socialização e a comunicação entre os participantes, por meio de atividades lúdicas que estimulam a espontaneidade e a conversa e geram um momento prazeroso na semana.

 

Ana Maria, uma das participantes, acha o grupo muito bom. “A atividade que a gente faz vai estimular o cérebro para buscar as coisas que ficaram perdidas por causa do AVC. Então devagarzinho a gente resgata a palavra e muitas coisas que estavam perdidas. Quando vim aqui não conseguia relacionar, falar as coisas certas, porque fiquei pelo menos três anos isolada dentro de casa. Queria conversar e não conseguia. Depois comecei a fazer fono aqui e melhorou bastante. Então pra mim o grupo é ótimo.” A paciente conta também que gostava muito de cantar mas, de repente, esqueceu-se de tudo e não conseguia mais. “Comentei com a psicóloga e pedi para conseguir cantar de novo. Primeiro as cantigas de criança – para fazer a criança dormir -, que eu cantava para os meus filhos. Agora os netos pedem para eu cantar para eles, mas não consigo. Pedi para a psicóloga e ela pediu para a Helen para eu voltar a cantar. Agora devagarzinho, com dificuldade com as palavras e para juntar as frases, às vezes sai. Às vezes saio daqui e lembro de algumas coisas que cantei, não muito, mas lembro de pedacinhos e tento em casa. Então devagarzinho tá indo”, relata Ana Maria.

 

Alguns pacientes se dão alta, percebendo que já estão bem, mas alguns ficam bastante tempo – como os que estão atualmente -, pois veem o grupo também como um espaço prazeroso. A alta é baseada na capacidade do paciente de conseguir realizar ações comunicativas fora do ambiente terapêutico, que é entendido como um ambiente protegido. Quando o paciente tem condições de ter socialização em ambientes do mundo, fora desta proteção, é bom que ele explore estas condições para auxiliar seu desenvolvimento. No geral, eles próprios percebem que estão neste estágio e se dão alta.

 

A tendência é comparar a sua situação atual com o que era antes e é um dos papeis do grupo mostrar que, mesmo após o acidente, eles têm suas capacidades e podem realizar coisas com suas limitações encontrando a melhor formar de conviver com as sequelas que ficaram. Tania conclui dizendo que “quando a gente é criança espera que coisas vão mudar e a gente vai se adaptando a essas mudanças. Depois de adulto, quando começa a crescer, a gente acha que nada mais vai mudar, mas ter um AVC, é mais uma mudança da vida que exige adaptações e que se continue vivendo da maneira como se consegue a partir de agora. O importante é eles perceberem que são capazes de se comunicar, mesmo que não como antes, só por meio da fala, mas utilizando outros recursos, como os gestos, que também comunicam, levando isso para o cotidiano.”

 

O “Grupo de Estimulação da Linguagem de pessoas com afasia por meio da musicoterapia” é realizado todas as quartas-feiras pela manhã e tem duração de uma hora. Inaugurada ao final de 2004, a Unidade Saúde-Escola é um espaço da UFSCar destinado ao desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão. A USE se configura como um ambulatório de média complexidade e atende especialmente aos municípios de São Carlos, Ibaté, Descalvado, Dourado, Porto Ferreira e Ribeirão Bonito, assim como os demais municípios vinculados ao Departamento Regional de Saúde de Araraquara. Está localizada na área Norte do campus São Carlos e seu horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira das 8 às 18 horas. Mais informações podem ser obtidas pelo site www.use.fscar.br ou pelos telefones (16) 3351-8645 ou 3351-8411.

 

Fonte: Assessoria