Início Cultura ‘’O Homem dos Sonhos’’: O Limite Entre Realidade e Pesadelo

‘’O Homem dos Sonhos’’: O Limite Entre Realidade e Pesadelo

Por Marco de Cardoso

Roteiros baseados em narrativas sobre pessoas que da noite para o dia se tornam celebridades instantâneas e tem sua vida alterada de ponta cabeça, sempre foram explorados (e bem) pelo cinema. Mas poucos filmes capturaram  esse fenômeno com tanta originalidade  quanto “O Homem dos Sonhos” que chega aos cinemas brasileiros.

A obra dirigida pelo norueguês Kristoffer Borgli (que também assina o roteiro) e estrelada pelo (grande) ator Nicolas Cage, se propõe a desvendar não apenas a natureza efêmera da fama, mas também a intrínseca busca humana por significado e reconhecimento.

Nicholas Cage, conhecido por suas performances intensas e por vezes ‘’extravagantes’’, assume aqui o papel de Paul, um professor universitário de biologia numa faculdade de uma cidade não muito grande nos EUA. Visto pelos amigos, colegas de trabalho, alunos e até mesmo por sua esposa e filhas como um sujeito meio simplório e entediante (pra não dizer ‘’chato’’) Paul tem sua existência medíocre  subitamente catapultada ao estrelato mundial devido a um fenômeno inexplicável: milhões de pessoas de diversas partes do globo começam, de uma hora pra outra, a sonhar com ele. 

A premissa, embora possa soar absurda à primeira vista, serve como um eficaz dispositivo narrativo para explorar temas como a solidão, o desejo de ser visto e a natureza invasiva da fama e a imposição da imagem sobre a personalidade real.

Paul, até então um homem que não conseguia chamar atenção de ninguém, se vê cercado por uma ‘tietagem’’ em proporções descomunais, em nível algoritmo. Seus  parentes, vizinhos, alunos e colegas de profissão, passam a vê-lo sobre outro enfoque, ao ponto de ser fotografado por todos os celulares nas mãos de quem está próximo, como se fosse o novo ‘’influencer digital do pedaço’’. A situação chega a um ponto tal que ele é contratado para fazer parte do ‘’casting’’ de uma grande agência de comunicação e marketing, na qual um grupo de jovens ‘’marqueteiros’’ o veem como ‘’a pessoa mais interessante do mundo naquele momento’’, querendo escalar o pacato professor até para estrelar mega campanhas publicitárias milionárias, envolvendo inclusive uma famosa marca de refrigerantes.

Em contradição absoluta com todo este glamour e holofotes, a única coisa que Paul realmente deseja é algo muito menos espetacular: publicar um livro sobre sua tese de doutorado na área de biologia, algo que ironicamente permanece fora de seu alcance, apesar de toda fama súbita.

Mas o dilema de Paul não para por aí.  “O Homem dos Sonhos” adentra território que mais parece uma floresta de areia movediça sombria quando o protagonista, antes uma figura passivamente simpática nos sonhos alheios, se torna protagonista de pesadelos violentos e perturbadores. A transformação de Paul numa espécie de ‘’Freddy Krueger do metaverso’’, serve como um ponto de virada na trama, desencadeando um processo de ‘’cancelamento público’’ que destrói sua vida profissional e pessoal. 

O filme se destaca ao explorar a complexidade dessa situação. Borgli tece uma narrativa que questiona o valor da fama e a autenticidade das relações humanas numa era dominada pela imagem e pela superexposição midiática. 

Já Cage (indicado por esta performance como Melhor Ator no último Globo de Ouro) entrega uma atuação notavelmente contida, encarnando um homem que não compreende o que ocorre com sua ‘’vidinha’’ lugar comum e fica à beira de um ataque de nervos, pronto para explodir(ou implodir) enquanto sua identidade real é dilacerada entre a realidade e a representação, entre o ser e o parecer.

Abandonado por sua esposa Janet (Julianne Nicholson, excelente) e afastado das  filhas Sophie e Hannah (Lilly Bird e Jessica Clement, as duas dando conta do recado), Paul se torna um pária, perdendo seu trabalho, morando  de favor na casa de um amigo e vivendo dos lançamentos de livros cult de terror kitsch (nos quais ele é o personagem principal) e buscando refúgio no único lugar onde acredita poder encontrar paz: o mundo dos sonhos.

 Borgli apresenta uma crítica mordaz à cultura das (sub)celebridades e ao fenômeno do ‘’cancelamento’’, questionando a volatilidade com que a sociedade atual constrói e destrói seus ídolos. A decisão de Paul de se refugiar nos sonhos, utilizando uma técnica para controlá-los, simboliza uma tentativa desesperada de retomar o controle de sua própria narrativa, uma busca por redenção num mundo em que (segundo o sentimento dele…) ninguém perdoa…nem Deus!

Visualmente, o filme traz uma direção de fotografia brilhante que transita habilmente entre a realidade da rotina de um ‘’desinteressante’’ Paul até o realismo fantástico de um mundo de sonhos angustiantes e assustadores, que começam a pautar a vida real à medida que a história se desenrola.

“O Homem dos Sonhos” é uma obra provocativa e reflexiva que se destaca no panorama cinematográfico atual. Com uma narrativa inovadora, atuações convincentes e uma direção segura, o filme é ao mesmo tempo um conto de advertência sobre os perigos da fama e uma reflexão sobre as altercações da natureza humana num mundo contemporâneo obcecado pela imagem, no qual a linha entre realidade, pesadelo e ‘’bons sonhos’’ se torna absolutamente embaraçosa, frágil e destrutiva. 

https://www.youtube.com/watch?v=VV3bpBLixEs

_________________________

Marco de Cardoso é Diretor Cultural da AIB – Associação da Imprensa do Brasil