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O olhar diz tudo!

Por Jansen Oliveira

A  mudança de hábito imposta a todos nós neste momento tem provocado reações diversas. Para alguns, o novel comportamento  determinado pelo isolamento social tem servido de estímulo para novas descobertas, enquanto para outros a transformação tem sido um fardo difícil de suportar.

São muitas as tarefas que incorporamos às nossas rotinas diárias, ultimamente. Aquele avesso às redes sociais, viu-se obrigado a aderir ao mundo conectado. Quem nunca havia se rendido às reuniões remotas, passou a experimentar mais de uma plataforma.  As tarefas domésticas estão cada vez mais ligadas nas agendas de pessoas que antes não tinham a menor intimidade com a vassoura.

Dentre essas diversidades de comportamentos, um novo costume tem me chamado muita atenção, até de maneira positiva. Pelas saídas pontuais que precisei fazer percebi uma adesão em massa ao uso da máscara. Um misto de consciência e obediência ao recém decreto municipal, que obriga a utilização do artefato, mudou o panorama coletivo da cidade.

A partir deste cenário de mascarados, observei que os usuários já demonstram uma tendência. As máscaras tipo cirúrgicas ainda aparecem com certo protagonismo, mas nota-se a forte presença daquelas de tecido. Pretas, coloridas, customizadas, as máscaras, acho eu, vieram para ficar. Meu sentimento é de que, mesmo com a vacina contra a Covid-19, vez em quando ela aparecerá ditando moda. É assim, inclusive, no Japão, na própria China e países vizinhos, onde  a utilização perpassa pelas  epidemias e guarda lugar na educação das pessoas, que evitam transmitir, inclusive, um resfriado.

Interessante é que com o novo item de vestimenta, um famoso órgão do corpo humano, um tanto quanto renegado voltou a ter destaque. Todos hão de concordar que com o rosto metade coberto os olhos têm sido os verdadeiros protagonistas nas ruas.

Por intermédio deles podemos distinguir os mentirosos, perceber os tristes e apontar os alegres. Considerados as janelas da alma, com os olhos testemunhamos a vida e a morte. Através deles descobrimos e redescobrimos o amor.

Talvez estejamos, hoje em dia,  destreinados em decifrar o significado de cada olhar. Os afoitos podem atropelar uma oportunidade e os distraídos deixar passar uma chance.

Em recentíssima ida ao supermercado, verifiquei que a prática de se entreolhar  tem, de fato, emergido e com isso a comunicação verbalizada,  precária pelo som abafado da máscara, tem fluído à contento.

Vejam, notei isso pessoalmente. Com todos os produtos listados já dentro do carrinho, avistei um caixa completamente vazio e sem pestanejar manobrei-o com orgulhosa habilidade posicionando-o próximo à esteira. Ao curvar-me para pegar as compras, de soslaio, vi um olhar idoso furibundo em minha direção. A intensidade do ato foi tamanha que em dois tempos “saquei” que algo de muito errado havia feito. No meu outro lado, contrário ao meu repreendedor,  meus olhos identificaram uma placa  com os seguintes dizeres:  EXCLUSIVO PARA DEFICIENTES, IDOSOS E GESTANTES.  Sem dar um pio e com gestos repetidos de um cumprimento japonês, sai disparado em busca de outro caixa. É, o olhar diz tudo!

 

Jansen de Oliveira, Advogado e Diretor de Relações Institucionais da Associação da Imprensa do Brasil – AIB